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29/07/2013 / Paulo Wainberg

Missão sabonete

Jasão, herói grego, para reaver o trono de Tessália, foi enviado por seu tio, ocupante do cargo, em busca do velocino de outro.

Para cumprir a tarefa, foi à cidade de Argos e lá construiu um navio a quem denominou Argos. Sendo muito difícil a tarefa, convocou os heróis gregos da época que constituíram a tripulação e, por isso, ficaram conhecidos como Argonautas.

Partiram mar a fora, cruzaram com diversos perigos, monstros, dragões, venceram a todos finalmente e após muito esforço, recuperaram o velocino de ouro.

É uma história bastante conhecida e integra o elenco de luxo da mitologia grega.

A questão, para neófitos é: O que significa a palavra velocino? Não, não é um medidor de velocidade nem um radar ou um bafômetro.

É uma pele de carneiro.

Quer dizer que Jasão e os Argonautas sairam por mares e rios desconhecidos, nunca antes navegados, inclusive o Bósforo, para capturar uma pele de carneiro de outro.

Porque o mítico pelego era de ouro? Não sabemos.

Qual o seu significado histórico? Não sabemos.

Valeria uma fortuna no mercado? Não sabemos.

A explicação mais provável é que o usurpador do trono de Tessália, disposto a manter o trono, enviou o sobrinho para uma missão impossível da qual tinha certeza de que ele não voltaria vivo.

Feita esta pequena introdução, à guisa de explicação preliminar, vou ao que realmente interessa, o sabonete esfoliante.

Não sabia de sua existência até o dia em que, fazendo uma limpeza de pele (retirada de cravos das minhas costas), minha mulher falou que eu precisava usar um sabonete esfoliante.

Dito assim, em seco, me assustei. Sabonete esfoliante? Estaria ela querendo esfolar minhas costas? Deixá-las, e eu com elas, em carne viva, sanguinolenta e ardida, método dramático a meu ver para evitar o surgimento de novos cravos?

– Você quer me despelar – indaguei.

– Como?

– Arrancar a pele das minhas costas?

Ela riu:

– Não, sabonete esfoliante faz uma limpeza de pele. Não é esfolante, meu filho, é esfoliante.

Mais tranquilo, fui ao ponto que me interessava:

– E faz espuma?

– Claro que faz, é sabonete!

No dia seguinte fui para o chuveiro e peguei, sem olhar e sem lembrar do caso, o sabonete que repousava plácido e branco no suporte de metal onde ficam os sabonetes, no meu banheiro.

Como sempre faço, comecei pelo peito e logo senti a coisa: Tinha areia grudada no sabonete.

Sim, estava ali, ao meu dispor, um sabonete esfoliante.

Examinei o cosmético e vi que pequenos pontos salientes afetavam a habitual e gostosa lisura dos sabonetes normais. “São os esfoliantes”, pensei.

Como não sou homem de desistir, ensaboei-me de alto a baixo, sentindo-me arranhar como se estive me lavando com uma lixa de unhas usada, das que perdem o atrito com o tempo, mas conservam seu mínimo poder lixante.

Nas costas fui até onde minha parca elasticidade permite, pocou abaixo dos ombros, pouco acima da cintura.

Terminado o banho, na hora do café afirmei:

– Não quero mais sabonete esfoliante.

– Por que? Tua pele já está mais lisinha…

– Não, não está. E além do mais, não faz espuma. Um dos prazeres do banho está na espuma, do sabonete e do shampoo. Tirando a espuma do sabonete, me senti como se não tivesse tomado banho.

– Bom, então não usa mais.

E foi assim que, como Jasão e os Argonautas, escapei da terrível missão que me fora imposta e acho que fiz bem. Se continuasse usando o sabonete esfoliante, minhas costas teriam se transformado no velocino sequer dourado.

Sabonete esfoliante! O que mais vão inventar neste mundo moderno?

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