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05/07/2013 / Paulo Wainberg

Dora e a avenida

Quando a avenida me perfurou, não acreditei mesmo.

Eu andava a esmo na vida, meio assim com pena de mim e a avenida frondosa não teve pena, me atravessou maldosa e ainda riu de mim.

 

Dor não senti, avenida era metáfora da visão estratosférica de arlequim, colombina e pierrot que derrubaram meu chatô, juro que quase morri.

 

Minha visão periférica evitou dano maior e coisa e tal, a avenida não atingiu órgão vital, apenas uma paráfrase da metafísica existencial.

Escondi meus espantalhos entre os galhos de um carnaval e, como na cidade era costume, borrifei meus adereços com jatos de lança-perfume, engoli os canutilhos, arranquei as miçangas de fé e fui refestelar meu tédio nas portas de um cabaré.

A avenida impiedosa me alcançou na escada da entrada do lupanar onde Dora, a gostosa, me esperava pra dançar.

Vasculhei os arredores atrás de outros amores que, aliás, nunca tive, Dora não me namora, Fernanda não me dá banda e Maria Aparecida, coitada, era um tico, quase nada.

Quando a avenida me devorou com sua boca de canil, você andava muito louca, enfeitiçada, a mil.

E eu, pobre pagão, paguei todas as contas da ilusão com a moeda que tinha, um saco de farinha, uma loção pós barba e dois quilos de feijão.

Dora, a retirante, retirou-se da vida e eu escapei da avenida com um bilhete só de ida.

Hoje que ando a esmo, assim com pena de mim, não me entrego, não mesmo! à avenida e ao que ela fez de mim.

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