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03/07/2013 / Paulo Wainberg

O prenúncio

Ninguém poderia suspeitar que quatro pneus traseiros esquerdos explodindo durante uma corrida de Fórmula Um era o prenúncio.

Na noite daquele domingo, na província de Cachaquistão, interior do Buziquistão na Asia Menor, cem pneus traseiros esquerdos de cem carros velhos de cem marcas diferentes, explodiram na mesma hora, deixando seus motoristas na mão e congestionando o trânsito como nunca antes se havia visto naquele país.

Na manhã seguinte, segunda feira, os pneus traseiros dos carros de todo o Mundo explodiram, inclusive os que ainda estavam nas garagens, em estacionamentos públicos e, é claro, os que ocupavam aos milhares as ruas e avenidas das cidades mais insignificantes às mais importantes do Planeta, inclusive Dom Pedrito, Xangai, praia do Remanso e zona leste do Riiio.

As companhias de seguro não davam vencimento aos chamados porque a grande maioria dos proprietários de usuários de automóveis não tinha a menor ideia de como se troca um pneu. Outros tantos não tinham estepes. Milhões não conseguiam fazer os macacos funcionarem.

A situação ficou mais grave quando, na tarde da mesma segunda feira, os pneus traseiros esquerdos de ônibus e caminhões também explodiram, transformando o Planeta Terra num interminável engarrafamento

Os que, por razões milagrosas, conseguiam trocar o pneu explodido não conseguiam sair do lugar e então aconteceu o que ninguém da mídia internacional ousava ousar: Os pneus traseiros esquerdos dos aviões e de todo o tipo de aeronave com pneus explodiram ao mesmo tempo, às oito horas da noite, nos respectivos fusos horários.

Além das aterrizagens de emergência, felizmente sem nenhum acidente fatal, por falta de material humano e por falta, no mercado, de pneus traseiros esquerdos, o tráfego aéreo congestionou como um nariz gripo e, tirando os navios, a Humanidade ficou simplesmente paralisada.

Os cientistas pneumáticos atiraram-se febrilmente ao trabalho, tentando entender a causa de tamanha devastação e, na terça-feira publicaram um anúncio na Internet e na mídia, dizendo que a responsabilidade pelo fenômeno era dos motoristas, que não davam aos pneus a atenção merecida, no sentido de verificar a calibragem, fazer muitas curvas à esquerda onde a pressão aerodinâmica e a força centrífuga concentravam-se nos pneus traseiros esquerdo. Além da incontável quantidade de pneus traseiros esquerdos carecas, graças ao desleixo dos donos de carro.

Na quarta-feira, onze da manhã, começou o incêndio. Vapores de etanol, gasolina e gaz super-aquecido incandesceram, inflamaram e explodiram devido ao grande número de fumantes trancados nas ruas e rodovias e na quarta-feira de tarde o Planeta, tal como o conhecíamos, se transformou numa imensa bola de fogo.

Sempre, repetimos, conforme os diversos fusos horários.

Multidões caminharam pelas ruas, não em protesto mas por falta de outro meio de locomoção. Quem estava perto de casa teve sorte. Quem estava longe, não.

Governos se auto-convocaram e na quinta feira às três e meia da tarde, respeitados os fusos horários, uma grande conferência on-line se realizou, bastante prejudicada pelo sinal da Internet, enfraquecido pela gigantesca nuvem de fumaça, tóxica e não tóxica, que se instalou redondamente sobre a Terra, impedindo que um simples mortal, um mero humano, conseguisse ver o céu ou a luz do sol e da lua, conforme os fusos horários.

Mesmos assim as Nações planetárias conseguiram elaborar um plano de emergência, com a ajuda do Exército à cavalo ou à pé, e com apoio da Marinha que não ousava permitir que seus navios se aproximassem dos portos.

O plano de emergência era simples, deixar queimar o que já estava incendiado e, depois, ver como é que ficava.

Deu errado. O Planeta ardeu de ponta a ponta, de perímetro a perímetro de raio a raio, de circunferência a circunferência, tudo queimou, todas as pessoas morreram queimadas ou sufocadas, inclusive os marinheiros, os capitães de fragata e os pescadores dos mares do Sul.

E foi assim que Deus, reunido com seus arcanjos, concluiu o experimento Raça Humana que, segundo lhe teria dito Satanás há muito tempo, já nasceu morto.

 

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