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25/06/2013 / Paulo Wainberg

Citando

Se ninguém notou e, provavelmente ninguém notou, não faço citações. Nem curto citações. Não, não é que não aprenda com as palavras alheias, não é que não me inspire com elas porque tudo o que aprendi na vida foi lendo o que os outros disseram e escreveram.

Eventualmente posso copiar uma frase aqui, uma letra de música ali, mas não uso a citação como método de demonstrar meu ponto de vista.

Ninguém jamais lerá um texto meu com citações de Montaigne, Maquiavel, Pierre Cardin ou Dolce e Gabana.

Não, não cito. Por que? É simples a resposta e vou ilustrá-la com o melhor que alguém pode dar de si mesmo.

Se não sei a letra da música, invento. E se meus ouvintes reclamam, esclareço: – Não me venham com letras prontas, faço minhas próprias letras.

Pessoalmente acho isto o cúmulo da arrogância, porém uma arrogância querida, quer dizer, sei a melodia e não sei a letra, a melodia é tão linda que merece uma letra, então invento a letra na hora, com palavras que me assolam o cérebro sem nenhum estudo, nenhum preparo e quase sempre nenhum conteúdo.

A letra que mais gosto de criar, diante da melodia que me agrada, é lalalaia, lalalailalala, como por exemplo quando vou cantar Os Boias Frias e tem aquela parte complicada.

Canto um laialalá caprichado e todos entendem, é uma letra simples, acessível e boa para formar um coral de participantes da rodinha de samba.

Infelizmente, há muito não participo de rodas de samba.

Agora você, que perde seu tempo me lendo, tem todo o direito de saber o motivo de minha resistências às citações. E eu vou responder.

Os citadores, e há muitos, sempre me pareceram pessoas sem palavras e sem ideias próprias. Sempre me transmitem a sensação de falta de originalidade, de usar palavras alheias para, como se fossem suas, dizerem coisas que a ninguém interessa.

Além disto, quando alguém cita alguém nunca estou em condição de saber se a citação é verdadeira ou inventada na hora e, depois, quando poderia conferir a autenticidade citatória, já esqueci qual foi a citação.

Eça de Queirós disse, alguma vez em sua obra, que o caminho para a verdade é a literatura?

Sei lá, mas quando um citador, no auge da discussão intelectual inútil, vem com tal citação, imediatamente recolho meus trapos, escondo minhas mazelas e vou em busca de outro grupo onde, se tiver sorte, mulheres conversam sem citar e, quem sabe, como diria alguém, eu possa me dar bem.

Saber de cor poemas alheios ou os próprios também me parece uma demasia para quem não está no palco.

O ator, o declamador, eles precisam saber de cor e por dever de ofício, os poemas alheios ou os próprios. Aí dá para entender a citação, faz parte do espetáculo.

Mas declamar um poema de Manoel Bandeira para dizer que o coquetel de inauguração de uma revenda de automóveis está supimpa, além de esnobe e inadequado, revela uma fluidez de caráter tão sórdida que, ai de mim e como dizia Platão(?), define tudo: Eis o homem.

Afirmar, como Descartes, Cogito Ergo Sum é de uma cafonice faustãodiliana, mariliagrabrieladiana, galvãobuenodiliana e outros afins. Começar o discurso em homenagem aos noventa anos do patriarca com as armas e o varões assinalados é chamar o pobre decrépito de cadáver.

Então não cito. E quando cito, cito a mim mesmo o que, cá entre nós, também é uma demasia.

 

 

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