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18/06/2013 / Paulo Wainberg

Contraponto do anticlimax ou Metáfora das paixões

Acho que estava acontecendo há algum tempo, mas só percebi dois dias atrás que tudo ficou sombrio, nebuloso e obscuro.

Nas ruas as pessoas passavam por mim como imagens mal definidas, os contornos dos prédios quase não conseguia ver e o dia, mesmo com sol, parecia menos claro do que habitualmente.

A noite, mesmo em lugares muito iluminados, era uma permanente penumbra e eu me senti cada vez mais triste, mais acabrunhado.

Comentei o assunto com alguns amigos, mas ninguém havia notado nada, para eles tudo estava igual e como sempre.

Uma sensação mórbida me atacou e, como sou naturalmente sensível, concluí que estava enxergando o mundo como enxergo a mim mesmo, triste, sem brilho, sem luz e sem iluminação.

Confesso, não vou negar, que um lado meu gostou, esse lado que sempre acredita que a verdadeira grandeza está no sofrimento, na angústia e no desejo da grande, da única e da perfeita emoção.

Um lado perdedor, é claro.

De qualquer forma, um lado meu.

No segundo dia da nova percepção, a coisa se agravou, quero dizer, minha visão estava definitivamente embaçada, minha visão concordava com minha mente e minha imaginação, não se definiam as imagens, as letras de livros e jornais e as teclas do computador cada vez menos visíveis, os ponteiros do relógio dois tracinhos sem sentido, bula dos remédios um universo distante.

Ri de mim para mim, com masoquista satisfação.

Eu estava me superando.

Finalmente via o mundo como sentia o mundo: Uma deformação visual, difícil de ser assimilada por uma psiquê deformada, uma psiquê contaminada, mal definida e sujeita a altos e baixos, sendo baixos os mais profundos e os altos quase nunca.

Aliás e entre parênteses, isso é que me dá certeza de não ser um bipolar, se eu fosse, aos baixos mais profundos corresponderiam os altos mais agudos. Mas não. Os baixos são muito mais profundos do que os altos conseguem ser agudos.

Hoje, quando acordei, pensei que havia atingido o auge, o limite máximo que qualquer um deseja, seja para o bem, seja para o mal: Quase não consegui identificar meu rosto no espelho.

Alegre com a profundidade da minha depressão, lavei os óculos, sequei e coloquei diante dos olhos.

Aleluia!, gritou o pastor que existe em mim.

Tudo voltou ao normal. As cores, as luzes, as imagens, a visão enfim, como diria o jornalista, porque eu não digo, odeio frases que terminam com ‘enfim’.

Sim, as lentes estavam sujas, empoeiradas, manchadas, engorduradas, coisas de óculos, enfim…

“Bem”, refleti de mim para comigo, “por alguma razão há tantos dias não lavo as lentes dos meus óculos.”

Sim, pergunto, por que fiquei tantos dias sem lavar as lentes dos óculos? Acaso desejo ficar cego? Acaso quero negar a realidade? Um complexo de Édipo mal resolvido?

Não, não, nada disto. Eu sei o motivo. Poderia, usando meus privilégios de escritor, inventar vários, mas não serei desonesto, nem com você nem com ninguém.

O motivo, apesar de pecaminoso, é simples, simples demais: Preguiça.

Tiro os óculos para tomar banho e depois coloco os óculos para poder fazer as coisas que se faz após o banho, inclusive me secar.

E, por pura preguiça, não lavo as lentes.

Enfim.

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