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13/06/2013 / Paulo Wainberg

Eu sou (4)

Eu sou o rato no esgoto, o pus na ponta do escroto, o cheiro da carne podre, o horror, o drama, a fome.

Eu sou o sinal vermelho, o dedo do açougueiro, a axila da prostituta, o pastor esganiçado, o saco da colheita divina, o cancro duro, médio e mole.

Eu sou o câncer do esôfago, o mar na rebentação, a parte funda do rio, o rasgo no casco do navio, o tripulante de que morre, o avião que se despedaça, a lebre na frente do farol, a lesma que perdeu a casca.

Eu sou o arsênico, a cicuta e o punhal, o bandido da luz amarela, o mijo no urinol e o pus da infecção. Eu sou a falta de ar, o pulmão carcomido, o fêmur rompido, o café com sal.

Eu sou a conversa mole, o papo furado, a promessa mentida, o desastre, o incêndio, a inundação e o doente terminal.

Eu sou o que nunca consola, eu sou o que sempre amola, sou o dono da verdade, vaidoso, arrogante e imoral.

Eu sou o que há de pior, o livro que nunca se lê, o que vai dessa pra pior, o filme de classe B, o cantil sem água, o deserto sem areia, a seringa na veia, o mal, o ruim, o péssimo.

Eu sou quem não se pode crer, aquele que nunca se mostra, este que vive na bosta… e gosta.

Eu sou o que não pode ser, o que não pode crer, o apóstata. O que banca o diabo, o demônio e o satanás, a maça envenenada, o tirano de arrabalde que só pensa em comer a beldade, tanto doa, tanto faz.

Eu sou o que não tem jeito, o que não dá jeito de jeito algum. Eu sou o todo, eu sou o um, eu sou nenhum.

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