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10/06/2013 / Paulo Wainberg

Em sociedade

Quando chegou à idade adulta, Bacamarte providenciou em Juízo a mudança do seu nome para Bacamorte. Alegou que estava mais de acordo com sua personalidade e quando o Juiz Amofinado perguntou a razão, ele retirou um bacamarte do bolso, apontou para a testa do Juiz e disse:

– Boa pergunta, meritíssimo, a resposta também é boa?

Sem hesitar, o magistrado deu a sentença e, dali em diante, Bacamarte passou a chamar-se, com orgulho, Bacamorte.

De posse do novo nome, infernizou a cidade, quando entrava no saloon ou na balada, as pessoas iam para os cantos, ai que Bacamorte escolhesse um deles para exercitar o novo nome.

Porém e apesar de tudo, Bacamorte jamais machucou alguém, jamais provocou alguém e jamais envolveu-se em brigas ou discussões.

Tinha o espírito leve como uma pena de andorinha, nada o tirava do serio e ostentava sempre um sorriso cordial, de quem está disposto a ajudar, de quem quer fazer o bem, de quem possui boa índole.

Amuleto, entretanto, era seu eterno rival. Quando tentou mudar o nome para Amareto, alegando que era sua bebida preferida, o Juiz recusou e afirmou, na sentença, que marca de bebida é insuficiente para mudar o nome, imagine se o requerente se chamasse Almanaque e quisesse mudar o nome para Copenhague, como iriam ficar as coisas?, o que falariam da Justiça.

Inconformado, Amuleto passou a perseguir Bacamorte, falando mal dele em todos os círculos da sociedade e, o que é pior, acusando Bacamorte de ter comprado o Juiz para mudar de nome.

Foram tantas as acusações que os boatos logo chegaram aos ouvidos do magistrado, o Juiz de Direito dr. Amofinado, que, amofinado, processou Amuleto por calúnia, injúria e difamação.

Através de sua boa índole, Bacamorte procurou Amuleto e propôs um acordo, mediante o qual e através de uma módica quantia a combinar, convenceria o Juiz Amofinado a desistir da denúncia.

Após longa negociação, Bacamorte acertou a percentual do Juiz Amofinado e convenceu Amuleto a pagar, em doze parcelas corrigidas monetariamente e mais um por cento ao mês de juros, devidamente capitalizados.

Amuleto, que naquele momento de sua vida, não podia ser réu de mais um processo sob pena de perder a virgindade, isto é, a falta de antecedentes, eis que fora flagrado numa blitz de trânsito com quase dois por cento de álcool no sangue, resolveu aceitar a proposta com o que o assunto se resolveu.

Com o valor recebido, Bacamorte comprou um carro semi-novo do ano passado e o Juiz Amofinado, por merecimento e antiguidade, foi promovido a Desembargador.

No dia da posse, além das autoridades e dos vários círculos sociais por onde o boato circulara, compareceram Amuleto e Bacamorte, hoje sócios numa empresa especializada em acordos judiais.

Vários advogados são clientes.

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