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07/06/2013 / Paulo Wainberg

O som

Ouviu a música celestial e achou que estava morto. Sorte ou azar, mas não estava. Nem a música era celestial, longe disto.

O alarido, uma gritaria, metais e tambores fluíam da janela aberta do carro ao seu lado, no engarrafamento, e ultrapassavam os limites sonoros do vidro fechado e abafava, isto sim e por completo, o trio de jazz que escolhera para ouvir, piano, bateria e contrabaixo.

Música celestial tinha sido o final de uma fantasia em que pensava, imaginando qual seria a música do Céu, quando lá chegasse, porque apesar de tantos pecados era para lá que iria, tinha certeza absoluta.

Considerou as possibilidades que tinha eliminando a melhor, que seria acelerar para longe, para enfrentar a situação. Podia abrir o vidro e pedir ao do lado que baixasse o volume, que fechasse a janela ou que fosse para a puta que pariu.

Esta última não lhe pareceu adequada, poderia resultar numa resposta no mesmo viés que exigira outra mais forte e tudo acabaria em notícia de jornal e isto ele não deseja ser, em nenhuma hipótese.

Observou discretamente o motorista, mais para definir o tipo, a idade e o volume da massa muscular do que para, propriamente, fazer alguma coisa.

Deu azar, foi flagrado na observação e o do lado encarava firme e desafiador, fez sinal para que ele baixasse o vidro e perguntou:

– Algum problema?

Não era uma pergunta afetuosa de alguém interessado em ajudar o outro. O tom era de quem sabia que a resposta seria o pretexto para novos fatos, novos eventos, desaforos, agressões e, quem sabe, um ou dois tiros disparados pelo outro.

Totalmente invadido pelo som que parecia vir das profundezas do seu inferno pessoal, olhou para frente a ver se o trânsito se movia.

Mas não.

E o outro continuava encarando, depois de aumentar ainda mais o volume do seu aparelho de som.

Num infinito segundo, viu sua vida passar diante dos seus olhos e fez aquilo que seu passado recomendava que fizesse, a atitude que lhe manteria a dignidade e mostraria quem, afinal ele era.

Com um sorriso discreto, disse ao do lado:

– Que espetáculo! Qual é o nome dessa banda?

Em seguida o trânsito andou.

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