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06/06/2013 / Paulo Wainberg

Corrida mortal

Foi um terremoto devastador que me atingiu sem nenhum aviso.

Eu era um tranquilo espermatozoide cochilando no meu beliche, quando um tremor absurdo tirou tudo do lugar e me lançou longe, lembro como se fosse hoje de manhã.

Acho que desmaiei porque quando abri os olhos estava voando em altíssima velocidade, rodeado de milhões como eu, a perder de vista. Perguntei ao que estava mais próximo o que acontecera, mas ele sequer virou a cabeça, tinha os olhos fixos a frente, como as pessoas que passam por mim nas calçadas.Ninguém me disse nada, não ouvi vozes misteriosas nem recebi instruções, mas sabia que tinha que chegar a algum lugar e que tinha de ser o primeiro a chegar, caso contrário estava morto.

Tive uma crise de pânico, não estava habituado a lugares tão vastos e abertos como aquele, até então minha vida estava limitada ao beliche onde tudo o que eu precisava estava a milímetros do meu alcance.

Imaginei que talvez sofresse de agorafobia, medo de espaços abertos, o pânico provavelmente liberou alguns hormônios e ainda que jamais tenha tomado esferoides, inibidores de apetite ou qualquer outro tipo de doping, minha velocidade de voo e, sem me dar conta, estava lá, na liderança quase isolada da maratona.

Quase isolada porque ao meu lado, um pouco para traz, um outro espermatozoide voava  como um jato supersônico e, rapidamente estávamos os dois, cabeça com cabeça, disputando o primeiro lugar.

Os outros milhões ficaram para trás, provavelmente por preguiça, falta de ambição ou por serem portadores de deficiências físicas, sei lá, a verdade é que, sem saber qual era a linha de chegada nem a distância que faltava, não me senti à vontade para deixar o outro passar.

Coisa de foro íntimo, eu suponho.

Mais adiante, já bem cansado, propus a ele um empate técnico, chegaríamos juntos à linha de chegada, dividiríamos o pódio, as medalhas e a premiação.

Mas ele foi irredutível e declarou, num tom que até hoje me arrepia só de lembrar:

– Comigo é tudo ou nada!

– Ah é? – Ponderei. – Não acha melhor a metade do que nada?

Ele não só não respondeu como, num arranco, colocou-se alguns mega milímetros à minha frente.

Cogitei de desistir, deixar que ele ganhasse, afinal eu nem estava interessado naquela corrida, grande coisa não ser o primeiro! Mas o instinto me avisou que a situação era, mesmo, de tudo ou nada, ou eu ganhava ou eu morria.

Sinceramente, ainda não consigo entender o motivo que me levou a querer ganhar. Eu podia ser segundo na corrida e morrer com toda a dignidade. Mas não! Segundo era pouco para mim e morrer ali, naquele espaço enorme e úmido não me pareceu uma coisa muito higiênica.

Sacudi minha cauda com todas as forças e, numa arrancada sensacional que raramente se vê nas corridas de Fórmula Um, ultrapassei o cara e, sem saber que tinha chegado, cheguei.

Acho que desmaiei outra vez e, quando acordei me senti muito bem, feliz, quente, alimentado e psiquicamente equilibrado como nunca imaginei que fosse possível.

Minha vida mudou muito, e para melhor. Agradeci a mim mesmo pelo esforço final, por ter vencido e por ter merecido aquela paz que, na minha vida de espermatozoide – que não era nada ruím – nunca imaginei que pudesse existir.

Achei que seria para sempre. Mas um dia, novamente sem nenhum aviso, um terremoto brutal sacudiu tudo, com tamanha fúria e violência que tive certeza que não escaparia.

Eu estava certo, não escapei mesmo, fui arrancado da divina contemplação e morri.

Hoje, transformado em algo que nunca imaginei ser, o que me resta é o arrependimento. Eu devia ter permitido que o outro espermatozoide ganhasse aquela corrida.

Tenho certeza de que o fim dele foi muito melhor, mais rápido e indolor do que o meu.

 

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