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29/05/2013 / Paulo Wainberg

Sou (2)

Eu sou o dedo na canja, o herdeiro da paz e da luta, o jardineiro da tua estufa, o pai do filho da puta, o sal no meio do açúcar, o buraco na sola da pantufa, o misero coronel de galochas, a alegria dos brochas, o radio mal sintonizado, o pecado, a infâmia e o bastardo, os pulmões enfumaçados, os grilhões arredondados, eu sou o navio do pirata, o garfo a faca e arroz, a garça sem pena e sem pata, a dor, o horror atroz. Eu sou o pouco que resta, um certo ladrão de criança, a falta de uma esperança e, no lixo, a casca da laranja. Eu sou o menos que aflora, a virgem que não se deflora, o louco na beira do hospício, os cornos do frontispício. Eu sou o nada e o menos, eu sou a aveia do cal, o padre no funeral e a mãe, o pai e o filho. Eu sou o sabugo de milho, o verdugo capital, um gesto meio sem jeito, um calo, um pária, um defeito.

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