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27/05/2013 / Paulo Wainberg

Prefácio

Este é o prefácio do meu romance A teoria de Marie Schwramm.

Trata-se de um prefácio comme il faut, dizendo tudo e revelando nada, para que o futuro leitor tenha plena consciência de onde está se metendo, ao ler o livro.

Graças ao talento de Paulo Bentancur.

PREFÁCIO

A estranha biografia do protagonista

Paulo Bentancur 

Todo protagonista que se preze preza antes de mais nada o espaço ficcional que lhe é dado pelo autor. E não perde uma única oportunidade de marcar cada cena, cada fala, cada pensamento. Aliás, como pensa esse Mauricio – por falar nisso, professor de Filosofia, que a ditadura militar no Brasil impediu de exercer a carreira, extirpando sua disciplina dos currículos. Acaba, ironicamente, trabalhando para seu próprio verdugo, e rebaixado de função: datilógrafo, no tempo em que o computador já era um sonho, mas só um sonho inclusive suspeito.

Antes desse momento, quando o protagonista já é um adulto, embora ainda jovem, acompanhamos sua trajetória de filho de classe média com recursos e com os emblemáticos conflitos de tal ente social: pré-adolescente fascinado e angustiado com a própria sexualidade, e com duas relações em casa: uma com a mãe, onde o diálogo se expande, e uma com o pai, em geral tensa. Sem falar numa terceira relação: a com as empregadas da casa, relação que cria sérios problemas para os pais administrarem o lar não sem sérios problemas.

Sem uma vocação que o direcione para escolhas profissionais capazes de o inserirem em contextos profissionais e afetivos costumeiramente convergentes, vive meio a esmo. Até o casamento um tanto precipitado embora o justificasse uma paixão avassaladora. O resultado é desastroso, e não cabe, num prefácio, dar detalhes, sobretudo tais detalhes, que o romance expõe com uma intensidade rara.

Anos depois, já funcionário em pleno Exército nacional, o coração cultivando duas raízes, antagônicas, e ambas alimentadas por uma ironia que percorre o livro todo, como um frisson em toda sua espinha dorsal, participa de uma experiência científica secreta. Tão secreta que após a anistia e o desmantelamento da máquina dos torturadores, ainda assim todo o projeto, que o marcou e aos colegas, amigos, amante, futura mulher, já amadurecido e tendo enfim feito o que julgava uma definitiva escolha numa vida sem escolhas (Mauricio vive uma vida que o leva, jamais ele levando a própria vida), tal experiência, saliente-se, continua secreta. Mas comprovada com alguns elementos mais sólidos como, seu maior exemplo, um personagem inesquecível: Fausto (atento leitor: anote este nome).

Falando em personagem, A teoria de Marie Schwramm é um romance que acompanha cerca de 50 anos da vida de um personagem (e da História do Brasil) dos mais marcantes da literatura brasileira, esse cínico Mauricio, marcado pelas próprias encruzilhadas. A maior de todas, provavelmente, a última. Que recém estará começando no último capítulo, na última frase, na última fala.

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