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20/05/2013 / Paulo Wainberg

Impressões: Berlim

Confesso que ao longo da vida nunca quis conhecer a Alemanha.

Confesso que, devido à minha origem judaica cultivei uma raiva surda e silenciosa pelos alemães, embora nunca, e nunca mesmo, eu tenha praticado ou demonstrado esse sentimento em público.

Confesso que, durante a ocupação soviética na Alemanha Oriental, gostava de ver que os russos não reconstruiam as ruinas da guerra, como se fosse uma espécie de castigo que os alemães merecessem.

Tudo isto eu confesso, não para me desculpar, mas para deixar claro que, nascido em 1944, pertenço à primeira geração de judeus após a guerra, ao nazismo e ao Holocausto e, para encerrar as confissões, confesso que os meus sentimentos sobre aqueles alemães que viveram e sobreviveram são, para mim, plenamente justos e que não diminuiram em nada, ao longo da minha vida.

Odeio aqueles alemães e tudo de ruim que aconteceu a eles é pouco, perto do que eles causaram à Humanidade.

Antes de decidir conhecer Berlim, muito pensei, hesitei e considerei. Resolvi incluir a cidade em meu roteiro, pois não gosto de ficar apegado a sentimentos ruins do passado, queria ver o que acontece lá, como são os novos alemães, como é a nova Berlim e de que modo se reconstruiram sob o peso macabro de sua História.

E não me arrependi.

Berlim é como a pérola, linda, brilhante e fria.

Chegamos à uma cidade moderna, cosmopolita, vibrante, sem o orgulho austríaco, uma certa arrogância que transparece nas pessoas quando, diante do que para eles é óbvio, tratam aos que não percebem a obviedade.

Exemplo: Perguntar num restaurante se há uma mesa é ouvir a seguinte resposta: Você está vendo alguma mesa vazia?

Resposta fria, de quem não está interessado em agradar e de quem acha que o outro é limitado, um verdadeiro alemão não faria aquela pergunta, diante de um restaurante lotado.

Berlim não se esconde do nazismo, mostra claramente o que foi feito. Mas quando falam em prédios e monumentos reconstruídos ou reconstituídos, referem que os mesmos foram destruídos pelas bombas lançadas sobre a cidade.

Uma igreja, chamada “Da memória”, é mantida como ficou depois dos bombardeios, para lembrar o que sofreu a Alemanha, devido à guerra.

Um dos monumentos mais impressionantes é chamado de Memorial em homenagem aos judeus mortos na Europa. Um enorme conjunto de retângulos de cimento, lembrando túmulos, de vários tamanhos e alturas, formando um labirinto opressivo e desnivelado.

O nome dado a esse memorial é incompleto, deveria se chamar Memorial em homenagem aos judeus mortos pelos nazistas.

Berlim livrou-se do nazismo, os remanescentes estão com mais de noventa anos. Mas não esquece o período do Muro, muitos da atual geração viveram em Berlim Oriental e a presença russa é, ainda extremamente relevante na vida da cidade.

Sente-se o alívio com a destruição do Muro, na mesma proporção com que manifestam indignação quando ele foi construído.

Sob outro aspecto, é uma bela cidade, com sua majestosa cultura e uma nítida influência norte-americana, nos costumes e nos hábitos.

Lá assistimos um espetáculo de variedades e sentimos como se estivéssemos em Las Vegas. A Filarmônica de Berlim, um dos grandes monumentos da Humanidade, estava excursionando, não foi possível assisti-la.

Seus museus e sua arquitetura são esplendorosos, especialmente o Pérgamo onde um pedaço dos Jardins Suspensos da Babilônia se oferece como um impensável feito da antiguidade.

Talvez Berlim não seja para os da minha geração. Me senti muito à vontade por lá, consegui abstrair sentimentos e ressentimentos, os jovens berlinenses são alegres, quase radiantes e a Alexanderplatz, centro geográfico e liberal, é uma enorme praça rodeada de lojas, bares e restaurantes, porém fria e sem encanto. É apenas a referência do centro da cidade que, durante a ocupação russa, foi uma extensão do Kremlin.

Uma referência que faço, indispensável, ao Museu Linekind, ao lado do Museu do Judaismo. Um prédio com o formato da Estrela de David, sem ligação externa com o Museu judaico, por onde se entra.

A ligação é toda subterrânea.

O Museu judaico tem, internamente, a forma de labirinto, e nele se vê a vida judaica em Berlim antes e até o início do nazismo.

Por seus corredores chega-se à uma porta fechada, já pertencente ao Museu do Holocausto de Linekind e, através dela, entra-se no primeiro ‘vazio’. Um espaço de pedra e cimento, altíssimo e, no teto, uma pequena abertura por onde mal passa a luz.

Há mais dois vazios e com eles Linekind, pessoalmente, em vídeo, explica a sua concepção. Antes do nazismo, os judeus exerciam na Alemanha a perfeita cidadania alemã. Com o nazismo, surgiu o nada, o vazio, “le  vide”, o oco, nada. A sensação é de angústia, apenas por estar ali, sem aberturas, sem saída, sem nada.

A Alemanha tornou-se um nada para os judeus alemães, durante de depois do nazismo.  única ligação entre os dois prédios, o Museu judaico e o Museu do Holocausto, é ao ar livre e chama-se o Jardim do Exílio, construções de pedra e cimento, formando um labirinto desnivelado onde o primeiro efeito é tontear o visitante.

Depois o Museu do Holocausto, de Lilekind, dedica-se a contar a história do povo do judeu e a explicar os principais símbolos do judaismo.

Não há nada para os judeus na Alemanha, após o nazismo. Esta é a concepção do artista que concebeu o Museu do Holocausto.

Como disse, talvez Berlim e a Alemanha não seja para os da minha geração.

Visitá-la, sim. Aproveitá-la, sim. Admirá-la, sim.

Mas voltar para lá, não.

 

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One Comment

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  1. Paulo Bentancur / Maio 22 2013 11:28

    Bah!

    Gostar

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