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17/05/2013 / Paulo Wainberg

Impressões: Praga

Praga não é uma joia, é um brinquedo mágico, um jogo de armar, um labirinto encantado e nada ameaçador, onde nos perdemos e percorremos várias vezes as mesma ruas que parecem novas ruas.

Na verdade são pequenas ruelas e, em qualquer uma delas você identifica antigas carruagens e trotes de cavalos de guerra, calcando seus cascos na pedra dura e irregular onde caminhar é um exercício de viagem no tempo.

Sua praça central é um evento constante, cultuada, curtida e invadida por milhares de turistas ao mesmo tempo, e para o lado que se olhar, há algo de belo para se ver e algo de triste para lembrar.

Por acaso, mas nem tanto, chega-se à Ponte Carlos I e dela se vê uma cidade deslumbrante, o castelo do lado de lá do rio, iluminado fulgurante e que preserva, no seu interior, o estilo feudal, com as capelas, a rua dos Alquimistas e casa, minúscula, onde supostamente Kafka teria escrito O Castelo, um dos seus livros de contos.

Kafka morou em várias casas, em Praga, que não existem mais. Sobrou esta, hoje uma livraria minúscula onde, para quem tem imaginação, não é difícil imaginá-lo escrevendo, atormentado e deprimido, sem nenhum desejo de ser lido.

Os restaurantes da praça central da Cidade Velha são divididos: Uma parte interna e sobre a calçada, com estufas para o frio, uns ao lado dos outros e de onde, como eu fiz uma tarde, tomando café e mais tarde jantando gulach, você pode observar as multidões em hordas, os guias turísticos com suas bandeiras coloridas para o alto, olhando a Catedral na qual se entra por uma construção, o relógio que de hora em hora fica repleto de turistas para ver um esqueleto dar as horas.

Foi em Praga que senti o que significou a ditadura do comunismo e concluí que a nossa ditadura, aqui no Brasil, foi brincadeira de criança.

Os tchecos foram isolados do mundo, eram obrigados a estudar russo na escola e – nisto os comunistas agiram bem – as religiões foram proibidas.

As catedrais e estátuas de santas foram transformadas em castelos e princesas e as gerações sob o comunismo tinham uma única verdade, totalmente isoladas do que acontecia no resto do mundo.

Artistas e intelectuais que, de alguma forma percebiam que estavam sendo sonegados e que a ditadura agia como uma máquina de lavagem cerebral, tentaram a rebelião, conhecida como a Primavera de Praga, em 1968, que foi brutalmente reprimida, com violência inusitada, matando milhares de pessoas.

Hoje os tchecos vivem uma enorme confusão existencial, ainda não compreendem o significado do capitalismo que lá se instalou após a União Soviética se dissolver, há quem tenha saudades do comunismo, quando a vida parecia menos complicada. E de certa fora era, as pessoas tinham suas funções determinadas e limitadas e sobrevivam com a ajuda do Estado, desconheciam realmente o conceito de liberdade e, como toda a multidão, estavam conformadas e tratavam de  viver e morrer como se aquilo fosse a finalidade da vida.

De repente, livres e tendo que trabalhar para ganhar a vida, a perplexidade tomou conta e, incrivelmente, ainda sabem exatamente como fazer contas.

País tradicionalmente antissemita, mostram-se hoje respeitosos com o que chamam o bairro judeu, onde está um cemitério com judeus mortos em progroms, cemitério que possui várias camadas, preservam a, segundo eles, segunda mais antiga sinagoga sinagoga européia e não esquecem as atrocidades cometidas contra os judeus, antes da invasão nazista e durante.

Senti um suave sinal de arrependimento.

Os tchecos, a exemplo dos húngaros, são rudes no tratamento, embora delicados e atenciosos. Estão à mercê dos turistas do mundo inteiro que para lá convergem, sobretudo uma grande quantidade de russos que se identificam pela rudeza e falta de educação.

Estas impressões que aqui relato não diminuem a cidade, seus encantos, sua boemia, seus monumentos e seus sabores deliciosos. Lá assisti um espetáculo do Teatro Negro original, bonito, criativo, engraçado. E fiquei sabendo que, após a Primavera de Praga e seu fracasso, foi uma maneira tcheca de continuar resistindo, mostrando um espetáculo de dança, mímica e efeitos especiais que dão o que pensar.

Quando descobri que passei a tarde num café onde, no andar de cima morou Einstein, no prédio ao lado morou Nobel e no café ao lado Kafka passavas tardes inteiras, senti que saber aquilo não fazia nenhuma diferença, além dos três, milhões de pessoas ali moraram e frequentaram os cafés, pessoas que não são relevantes nos dias de hoje, assim como não são relevantes as pedras, as construções, os edifícios, os lugares.

O que é relevante, para mim, é apenas a sensação maravilhosa de ter estado lá.

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One Comment

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  1. Paulo Bentancur / Maio 22 2013 9:33

    Paulo,

    grande crônica de viagem, trazendo aspectos mais que novos – inusitados – acerca de Praga. E eu que achei que tinha uma mínima ideia de como era a cidade, “só” porque não estive lá, mas, afinal, li TANTO sobre ela. Inútil. Nada como uma viagem real, como a tua. Esta, sim, relevante.

    Gostar

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