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07/05/2013 / Paulo Wainberg

Teoria geral do viajante de primeira viagem

Para quem nunca viajou do Brasil para a Europa, esta educativa coluna oferece a Teoria Geral do Viajante, com instruções, comentários e informações que, se você levar à sério, sei lá.

Pense no seguinte roteiro de viagem: Budapeste, Viena, Praga, Berlim e Paris que permitirá que você conheça dois países do leste europeu, dois países de língua alemã e, como a nome sugere, Paris.

O seu primeiro cuidado é definir seu grau de instrução que se divide em três categorias:

a) Analfabeto

b) Semi analfabeto.

c) Consegue se comunicar pouco, mais ou menos, quase nada ou muito bem em Inglês.

O ANALFABETO

Em Budapeste e Praga você é totalmente analfabeto e, por pouco, não é um imbecil. Você chega nessas cidades e percebe desenhos estranhos, caracteres surrealistas e reconhece apenas acentos um conjunto que, por estar no lugar adequado, você deduz que são letras. Alguns caracteres lembram os nossos, mas quando você vê o que parecer ser a letra ‘c’ com um acento agudo, sua auto-estima vai para a ponta do dedão do pé.

Na condição de analfabeto, o que lhe resta fazer é grunhir em vários tons e, com alguma sorte, você acaba dizendo algo que faz sentido a eles e, de um jeito ou de outro, porque as palavras táxi e hotel são universais, você consegue chegar, preencher as fichas onde eles apontam com o dedo, largar as malas e sair para o encantado mundo do analfabetismo.

Recomendamos que, tanto em Budapeste quanto em Praga, para melhor se localizar, você perca alguns quinze minutos escutando os húngaros e os tchecos falando. Logo, logo, você terá a sensação de estar participando de um acirrado debate político ou filosófico entre hipopótamos ou de uma feroz batalha entre gangues rivais de rinocerontes.

É interessante perceber que, quando você pensa que eles estão brigando e que a qualquer momento vai se armar terrível pancadaria, soa uma estrondosa gargalhada e você, aliviado, percebe que eles estão contando anedotas, uns para os outros.

O SEMI ANALFABETO

Em Viena e Berlim você identifica as letras (salvo uma ou duas), lá B é B, R é R e assim por diante e você dá um sorriso vitorioso, afinal você finalmente conseguiu ler, na Europa.

Entretanto, quando as letras se juntam, aí é que a cobra fuma. Você olha uma placa na rua e lê: Räusch&bergunsentereinfüruhlme&trasse. Pode ser o nome de uma rua? Pode. Pode ser a indicação de uma loja de presunto defumado? Pode. Pode ser um aviso proibindo de andar do lado direito da calçada? Pode.

Até você descobrir que &trasse no final de um grande aglomerado de letras significa simplesmente “rua” e que tudo o que você leu antes significa (pode ser… porque, tirando o &trasse o resto eu inventei) Arvoredo, e que tudo aquilo se resume a indicar que você está na rua do Arvoredo, você se arrependeu do sorriso vitorioso inicial e já se deu conta que está diante de uma árdua batalha para se comunicar.

Caso resolva usar o mesmo método de ouvir vienenses e berlinenses falando, você terá a sensação de estar num asilo para tuberculosos roucos, num canil repleto de cães resfriados ou num concurso aberto de tosse.

Mas não se preocupe, no final você vai se dar bem e tudo dará certo.

Principalmente quando você chega a Paris onde não precisa fazer coisa alguma, os franceses falando soa como música e, mesmo que não entenda o que eles dizem, é tão gostoso e agradável que você se sentirá em casa, ao lado da mulher ou do homem amado, curtindo enlevos que a música sabe proporcionar.

Finalmente, se você se comunicar de alguma forma em inglês, estará salvo porque, acho eu, em poucas décadas será, ai de mim, a principal língua falada na Europa.

Atualmente e para concluir esta parte da Teoria, é bom você saber que a Europa se divide em dois grupos de idiomas: O grupo dos grunhidos (Húngaro, Tcheco, Russo, Alemão, Holandês e os mais nórdicos) e o grupo musical (Francês, Italiano, Espanhol, Português e mais alguns).

E o Inglês.

Outra informação crucial para o viajante de primeira viagem e que você precisa levar em conta, antes de iniciar a aventura, é que o lugar onde você está nunca, e quando digo nunca quero dizer nunca, é perto do lugar onde você quer ir.

Isto é um fato decorrente dos princípios gerais da dialética e do materialismo histórico, o restaurante, o parque, o museu, a catedral, o teatro, seja onde for que você pretenda ir nesse dia de viagem, é longe do lugar onde você está agora.

Preciso esclarecer melhor este ponto, porque os conceitos de perto e longe são relativos e, nas cidades mencionadas, mais relativos ainda. Quando você pergunta se tal lugar é longe daqui, você ouvirá que não, mais ou menos quinze minutos de caminhada, não mais do que meia hora de caminhada, a cinco minutos daqui, informações que são prestadas pelos nativos com a melhor das intenções, mais ou menos como se você estivesse no Leme e perguntasse se Ipanema é longe e o carioca respondesse que não, mais ou menos vinte minutos de caminhada.

Isto acontece porque o nativo não tem noção exata das distâncias de sua cidade e, o que é pior, você embarca direitinho na informação e, depois de uma hora e meia caminhando sem chegar ao lugar que você quer, você conclui aquilo que deveria ter previsto que ia acontecer quando fez a pergunta: Você se perdeu.

E com isto faço a última análise, fundamental, caso você esteja viajando acompanhado do marido ou da esposa: Vocês vão brigar.

Sim, vão brigar muito, durante a viagem, porque além daqueles motivos de sempre pelos quais vocês brigam durante a vida do dia a dia, outros fatores são acrescentados durante a viagem e que vou, apressadamente, tentar revelar agora, porque são os mais comuns, para não dizer que são os que atingem a todo o casal que viaja.

Vocês irão brigar várias vezes ao em razão da divergência constante sobre para qual lado da rua devem ir. Basta um falar ‘para a esquerda’ que virá, de lá, um ‘não, é para a direita’.

Juntamente com milhares de outros casais, vocês param onde estão e abrem o mapa da cidade. Meia hora para localizar onde estão, meia hora para achar os nomes das ruas, meia hora para achar os pontos de referência, cada meia hora intercalada por ‘como você é teimoso’, ‘nós já passamos por aqui, lembra?, onde você tropeçou e quase derrubou aquela velha”, a irritação aumenta, daqui a pouco sai um ‘você é muito chato’, ou então ‘não aguento mais viajar com você’, mas não se preocupe, como em todas as outras brigas de casamento, esta vai passar e outras virão.

Como por exemplo, quando vocês conseguem chegar ao museu e você pára para admirar um quadro e imediatamente está sendo chamado para olhar outro. Ou quando, ao invés de comprar logo o que gostou, é convidado a dar mais uma olhada ali na outra loja. Ou quando você quer pegar um táxi e é intimado(a) a continuar caminhando. Ou quando, do ponto de vista do marido, no fim do dia, exausto e depois de fazer tudo o que ela pediu e sugeriu, você sugere ir de táxi do restaurante para o hotel e ela diz que prefere ir caminhando e você, de forma definitiva informa que nem pensar, que você não dá mais um único passo, ela lhe diz que você não faz absolutamente nada do que ela quer, que você é um egoísta que só pensa em você mesmo.

E mil outras situações e imprevistos que geram discussões, desavenças e desacordos.

Mas, devo dizer e ressaltar, viajar em companhia de seu par é a melhor coisa que existe, os momentos bons tem muito mais graça compartilhados e são muto melhor apreciados quando compartilhados. Não esqueça, nunca, que na cama, recordando o dia que foi aproveitado, há uma grande sensação de alegria e comunhão.

E para encerrar, desta vez é verdade, nossa última recomendação para quem não quer passar por essas divertidas e renovadoras atribulações, é que entre numa excursão com outros quarenta desconhecidos e entregue-se nas mãos de um guia que irá mostrar apenas o que ele quer, irá informar você com quantos ladrilhos foi construída a cúpula de todas as catedrais europeias, o nome de cada uma das estatuas esculpidas no fonte que representa o que você acabou de ouvir e acabou de esquecer e só terá olhos para o dedo indicador do guia, apontando para cá ou para lá. E quando estiver dentro do ônibus, saberá para que serve cada edifício da esquerda e da direta da avenida por onde ele está passando.

E agora, para definitivamente encerrar, um aviso: Você vai gastar muito porque um cafezinho na Europa custa, em média, quinze reais e a xícara nunca vem cheia.

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