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10/04/2013 / Paulo Wainberg

Felicidade

Eu queria morar numa fazenda, pensava ele todos os dias, antes de sair de casa para o trabalho.

Tanto pensou que decidiu. Vendeu tudo o que tinha e mudou-se para um sítio médio, totalmente isolado no campo.

Na primeira noite não conseguiu dormir por excesso de silêncio. Sua mente procurava os ruídos imperceptíveis da cidade notura, com os quais havia se acostumado. Ficou acordado por excesso de silêncio.

Pela manhã abriu a janela e olhou, contemplativo, a imensidade à sua frente, um campo verde sem fim, iluminado pelo sol nascente. Demorou o olhar sobre cinco vacas imóveis e duas ovelhas saltitantes.

Tomou café, encilhou o cavalo e foi-se campo a dentro, sentindo a força do vento contra seu rosto e seu corpo e suportou a ardência na bunda enquanto pode.

Dormiu à tarde, depois de almoçar um omelete e acordou já com o sol se pondo.

Da janela observou o Universo moribundo e sentiu a aconchegante melancolia das galinhas retornando ao galinheiro, dos pássaros revoando rumo aos seus ninhos, as minhocas se enterrando no solo e a escuridão assumindo o controle, acompanhada de um silêncio mortal.

Na cadeira de balanço, diante do fogo da lareira, sentiu-se feliz, estava livre das estrepolias da cidade, abençoada sua decisão de escapar do burburinho e da infernal das obrigações, tarefas, do trânsito, dos assaltos e das notícias, principalmente sobre política.

No segundo dia contemplou, da janela, a imensidão verde à sua frente, demorou o olhar sobre cinco vacas imóveis e dois carneiros saltitantes…

No terceiro dia resolveu sair da cama mais tarde e pensou em dar um pulo até à vila, cento e vinte quilômetros  de distância.

No quarto dia não saiu da cama.

No quinto dia levantou à noite, sentou no degrau da escada e ficou contemplando o céu e sua miríade de estrelas e um resto de lua minguante se pondo no horizonte. Deu um tapa na face esquerda e conseguiu matar o maldito mosquito que zumbia ao redor de sua cabeça.

No sexto dia percebeu que estava com a barba crescida e deixou o banho para mais tarde.

No sétimo dia acordou muito animado, contemplou da janela a imensidão verde, pousou o olhar nas cinco vacas e nos dois carneiros, tomou o café, encilhou o cavalo, galopou pelos campos, voltou para casa, dormiu toda a tarde e despertou a tempo de observar o Universo moribundo, morrendo com tudo ao seu redor.

Com o coração repleto de felicidade, enfiou o cano da espingarda na boca e puxou o gatilho.

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