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25/03/2013 / Paulo Wainberg

Ignorância

Estou para afirmar que duzentos e cinquenta milhões de brasileiros não têm a menor ideia de quanto a presidente Dilma gastou em sua visita para saudar o papa.

Também estou para dizer que dos cinquenta milhões que sabem, vinte e cinco milhões aprovam, vinte milhões não se preocupam e cinco milhões reclamam, protestam, escrevem e ficam indignados.

Os mesmos números se aplicam ao fato de Renan ser presidente do senado, ao fato de o pastor evangélico presidir a comissão de direitos humanos do congresso, às viagens empresariais de Lula, à fortuna do filho de Lula, ao Mensalão e aos demais escândalos políticos que pululam, no Brasil.

Se o meu cálculo estiver certo, somos trezentos milhões de pessoas habitando um país, das quais cinco milhões estão atentas e tentam, cada um como pode, produzir alguma diferença.

Admito que não fiz nenhuma pesquisa, meus cálculos devem estar completamente errados, os números exatos foram apenas um exemplo enfático do que acontece no Brasil.

Por que isto acontece? Óbvio que não sei as respostas certas, mas uma palavra me assalta, logo de início, quando penso no assunto: Ignorância.

A ignorância de que falo não é relacionada com alfabetismo, é a relacionada com a pobreza que, historicamente só não é chamada de miséria porque os governantes resolveram fazer a distinção, como se o Brasil fosse, por exemplo, um país europeu.

A pobreza, na Europa, está no nível da classe média B brasileira e a miséria praticamente não existe. Portanto, o ignorante europeu é muito mais conhecedor do que o ignorante brasileiro. O que significa que o ignorante europeu sabe o que se passa e vai às ruas protestar, exigir, cobrar e fazer com que as mudanças aconteçam, por mal ou por bem.

O ignorante brasileiro fica brabo porque tem que esperar na fila do SUS e quando, por acaso, é ouvido por alguma rádio ou jornal, o que ele diz é que ‘é brabo, mas fazer o que, tem que confiar em Deus’, e continua esperando na fila.

O ignorante brasileiro reclama tomando cerveja no  boteco e, depois da segunda, nem reclama mais. O ignorante brasileiro perde seus dias assistindo novelas, BBB, programas de variedades e sai da frente da TV na hora do noticiário.

O ignorante brasileiro gosta de dizer que político é tudo igual e que não entende disso. Ignorante brasileiro gosta de votar no candidato que vai na vila beijar crianças que nunca mais verá e que distribui, à socapa e na surdina, camisetas e cestas básicas.

O ignorante brasileiro adora fazer filhos para ganhar mais do bolsa família, adora percorrer quilômetros para chegar ao trabalho, adora reclamar quando a passagem sobe cinco centavos (sempre até a segunda cerveja).

O ignorante brasileiro fica feliz em morar em encostas que desabam quando chove, adora morar meses em abrigos públicos, adora jogar no bicho e ganhar dez reais, adora suar como um condenado em vilas e favelas, adora trabalhar como serviçal na casa alheia e adora a justiça do trabalho onde vai exercer os seus direitos.

Então, o ignorante brasileiro não vai se preocupar com as despesas absurdas da Presidente Dilma para apertar a mão do Papa, não vai se preocupar com a falta de infraestrutura no lugar onde mora e praticamente já se acostumou a ter filhos, familiares e conhecidos assassinados, em guerras de traficantes.

O ignorante brasileiro adora o seu pastor, adora dar dinheiro a ele, adora seu pároco, adora seu líder espiritual, seu pai de santo, adora por tudo nas mãos de Deus e na vontade de Cristo e adora não saber mais nada além disto.

O ignorante brasileiro adora a sua ignorância.

E as elites que comandam o poder no Brasil, as grandes famílias que os cinco milhões que se interessam sabem quem são, adoram a ignorância dos ignorantes brasileiros, adoram ensinar os ignorantes brasileiros a ler e escrever o próprio nome, adoram dar um dinheiro para que os miseráveis fiquem pobres e adoram incluir projetos sociais nos seus programas de governo, abrindo espaço para ministérios, secretarias, gabinetes e seus milhares e milhares de assessores.

E deixo bem claro que não se trata de uma questão de esquerda ou de direita. Trata-se da realidade.

 

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