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24/03/2013 / Paulo Wainberg

Medo de escrever

Penso numa jovem que sempre quis ser escritora, mas tem muito medo. Ao ouvi-la lembrei de Kafka que escreveu toda sua obra e jamais publicou uma linha sequer. E, perto de morrer, pediu ao seu amigo íntimo que queimasse tudo o que escreveu, desejo que, por sorte da Humanidade, o amigo não realizou.

O fato, que é bastante conhecido, estava adormecido no meu sistema de arquivos mentais e a frase da jovem acordou o bit, estabeleceu o link, fez alguma coisa com os meus neurônios cibernéticos e fiquei a me perguntar: Por que um escritor escreve, produz um complexo e amplo acervo literário e não quer ser lido por ninguém?

Qual foi o motivo essencial, “aquele” que determinou a ação de Kafka, escrever para não ser lido?

Eu não sei, não sou um estudioso da vida de Kafka e, de sua obra sou um leitor apaixonado porque sua obra é apaixonante.

Penso que, talvez, Kafka não quis ser um escritor, ou então não quis ser conhecido como escritor.

Imagino os dias e noites em que ele trabalhou seus livros e neles suas angústias, perplexidades e dúvidas, impossibilitado da não escrever tamanho era o seu universo interno, impossível de ser suportado apenas com suas limitadas emoções e pensamentos , incontrolavelmente expelidos na linguagem híbrida que é como se expressa o escritor que não pode deixar de ser.

Penso nele escondendo a obra terminada e iniciando outra, enquanto precisava também de ser uma pessoa, trabalhar e ganhar a vida.

Penso na dupla identidade, ambas verdadeiras, mas a primeira bem mais fácil de ocultar, coisa que Kafka conseguiu fazer, enquanto viveu.

Conheço pouco da vida dos escritores, nunca fui adepto de biografias, mas acho que um escritor escreve muito mais do que publica, comigo pelo menos é assim. E não por decorrência de um imperativo crítico ou estético, mas porque certas palavras, o escritor escreve para si mesmo, para guardá-las como uma bússola, para revelar-se para mais ninguém, apenas para si mesmo.

Quando o escritor publica, põe à mostra suas margens, seus atalhos e seus vieses, mesmo que não sejam as mais bonitas, os mais curtos e os mais fiéis.

Perguntei à jovem do que ela tinha medo para ser uma escritora e, antes que ela respondesse, disse-lhe que escrever não é a mesma coisa do que publicar.

Percebi o espanto em seus olhos e antes de partir, ela me disse: Obrigada.

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One Comment

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  1. Tatiane Freire / Mar 24 2013 12:40

    Como eu faço isso querido porque escrever da uma sensação de estar passando a limpo alguma coisa e isso alivia a mente e a alma bjs

    Gostar

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