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07/03/2013 / Paulo Wainberg

Elefante na sala

Existem dois tipos de puxa-sacos, entre outros. Os que puxam o saco para obter vantagens pessoais e os que puxam o saco por admiração  e idolatria.

Eu me incluo no segundo tipo.

Luiz Fernando Veríssimo escreveu que a melhor forma de conviver com um elefante na sala é ignorá-lo, fingir que ele não está lá e se alguma visita perguntar o que esse elefante está fazendo ali, responder: “Que elefante?”.

Atrevo-me a discordar do gênio e faço isto sem nenhuma humildade ou modéstia. Porque se você tiver um elefante na sua sala, será absolutamente impossível fingir que ele não está lá.

Elefantes comem, urinam e defecam. Como você vai lidar com ele fazendo isto na sua sala e fingir que ele não está lá? Considerando  tamanho, volume e quantidade das coisas.

Se você não der comida ao bicho, será acusado de maltrato aos animais. Se não limpar os excrementos naturais, não conseguirá entrar na sala e, em poucos dias, não conseguirá entrar na sua casa.

Conclusão lógica é que é absolutamente impossível ignorar a existência de um elefante na sua sala.

Corrigindo o grande escritor, a quem apelidei com originalidade de ‘o Gênio”, afirmo que a única forma de ignorar um elefante na sua sala é não ter um elefante na sua sala e em nenhuma outra dependência de sua moradia.

Entendi, porque não sou completamente imbecil, a metáfora utilizada pelo Gênio, em sua crônica. Fingir que o estorvo não existe é protelar, postergar, procrastinar o problema para ver se a coisa se resolve sozinha.

Como quando estraga a máquina de lavar roupa ou o computador. Você se afasta, deixa passar um tempo e depois religa o instrumento como se nada tivesse acontecido. As vezes dá certo.

Em geral, não.

Confesso que intrigou-me a metáfora, eu que sou LFV de carteirinha, predisposto a gostar de tudo o que ele escreve e gostando mesmo.

Vejamos:

Por que alguém teria um elefante na sala?

Os mais bem sucedidos domadores de elefantes do mundo jamais levaram seus elefantes para casa e isto não é uma assertiva vã, é fruto de muita suposta e suspeita pesquisa. Deixam seus elefantes domados em bem cuidados aposentos circenses, onde são tratados a pão de ló por experientes tratadores elefantinos.

Recomendo que se você tiver o súbito impulso de levar um elefante para casa, controle-se e se não conseguir, fale com alguém que more com você, sua mulher ou seu marido, seus filhos, a empregada, o vizinho do apartamento de baixo. Ouça com cuidado o que eles têm a dizer.

Faça um esforço prévio antes de sucumbir ao desejo de ter um elefante na sala de estar, raciocine, visualize a cena, você tentando assistir a novela, o BBB ou o jogo de futebol e o elevante paquidermemente plácido na frente da televisão. Como você arreda ele de lá? Você é obrigado a trocar sua confortável poltrona e sentar na banqueta incômoda que algum arquiteto furioso insistiu em colocar na sala para dar uma sensação de casualidade ao ambiente. Você não vai suportar as dores nas costas, isto eu posso jurar. Movimentar a televisão é um risco grave, você vai desconectar os cabos, não saberá em que buraco deve enfiar os fios – e são muitos – e ainda vai gastar dinheiro chamando um técnico que  fará ironias com a presença do elefante na sua sala.

Imagine que você finalmente conseguiu levar a menina ao seu apartamento, consegue acalmar o susto dela diante do paquiderme e, no quarto, no auge da aflição inter-fêmura, o elefante solta o seu berro de guerra, o grunhido ganido dos elefantes, capaz de assustar os mais ferozes animais selvagens. Brochada certa, vai perder a garota e nada restará além de um gim-tônica solitário na sala, olhando para ele e perguntando a você mesmo por que lhe deu na telha de levar aquele bicho para casa.

Não, não, meu querido e idolatrado LFV, um elefante na sala é demais até para as imaginações mais férteis. Você poderia reduzir o tamanho do bicho para a sua metáfora, um canguru na sala, um bode na sala, até uma vaca na sala cujos mugidos, para algumas mentes superiores, são considerados afrodisíacos.

Para salvar o dia e honrar o maior cronista brasileiro, socorro-me da antiga piada segundo a qual Sara foi queixar-se ao rabino que Jacó havia posto uma cabra na sala. O rabino pensou um pouco e disse à Sara que colocasse mais quatro cabras na sala. Sem entender exatamente a solução, Sara obedeceu a ordem do líder espiritual e colocou mais quatro cabras na sala que, assim, ficou tomada por cinco cabras.

Passados alguns dias, Sara voltou ao rabino e queixosa, disse que não suportava mais, cinco cabras na sala faziam muita sujeira, ocupavam todo o espaço, mal dava para se movimentar na sua humilde moradia.

O rabino coçou as barbas, os bigodes e o nariz e disse a Sara para retirar quatro cabras da sala. Obediente, Sara foi para casa e retirou as quatro cabras da sala.

Dois dias depois ela voltou ao rabino, radiante de felicidade: “Rabino, sua inteligência é divina. Minha sala ficou enorme, a limpeza ficou fácil, como estou feliz rabino, muito obrigado por sua ajuda, uma cabra na sala não incomoda nada”.

O rabino chamou um assistente e mandou entregar um bilhete ao Jacó: “Jacó, consegui acalmar Sara, você pode ficar com sua cabra na sala. Mas por favor, fique apenas com uma e jamais traga um elefante para casa”.

Se a metáfora de Luiz Fernando Veríssimo tivesse sido com uma cabra no lugar de um elefante, eu concordaria integralmente com ele: A melhor forma de ter uma cabra na sala é ignorá-la, fingir que ela não existe. Com um bicho menor talvez seja possível reduzir o tempo em que providências urgentes sejam tomadas e que os problemas de sempre sejam enfrentados e resolvidos de uma vez por todas.

Particularmente, se você não pode viver sem um bicho na sua sala, sugiro um uros de pelúcia em tamanho natural, fácil de manejar, fácil de usar e, glória de todas as glórias, totalmente silencioso.

Como falei, sou um puxa-saco por adoração e idolatria. Obrigado, Luiz Fernando Veríssimo, sem a sua genialidade esta crônica jamais seria escrita.

 

 

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