Skip to content
04/03/2013 / Paulo Wainberg

Crõnica do dia: Transgredir

Desta vez fui longe demais e agora, morrendo de medo, me escondo neste quarto escuro, vá que venham me confrontar.

Se isto acontecer, além da vergonha nada restará e serei desmascarado, execrado, a imagem que construí destruída.

Onde estou? No quarto de um hotel vagabundo, lugar que achei para me esconder, com o celular desligado e no escuro, estou com medo até de me olhar no espelho, dá para imaginar?

Tudo começou de forma inocente, numa festa de família onde eu estava com a minha, aniversário de um grande amigo. Todos lá eram amigos de vários anos, a festa corria animada, muita bebida, muita alegria e muita dança.

A dança foi a perdição, a minha perdição, o momento em que entrei solenemente pelo cano e fui longe demais, achando que podia fazer qualquer coisa, graças à grande quantidade de uísque que já havia bebido.

Todos pulavam na pista ao som de um horrível axé ou pagode, sei lá que música era aquela, eu que não curto nem dançar nem música moderna, muito menos roquenrol. Levado por uma mão que não lembro, talvez da minha filha, quando vi estava me retorcendo como uma minhoca, os braços e as pernas no movimento descoordenado dos que não possuem nenhum instinto para o ritmo e o máximo que conseguem numa batucada é batucar fora do ritmo.

Tudo que eu enxergava com meus olhos bêbados eram corpos retorcidos, pernas e pés femininos saltando e girando num frenesi que me deixava atônito, sei lá se por bebedeira sei lá se por senso crítico inato, nada daquilo fazia sentido, salvo coxas e seios balançando, coisa que sempre me deixou com uma tesão danada.

Sou tarado por coxas e seios, tenho que admitir isso e, se me descobrirem aqui e me interpelarem, será a primeiro coisa que direi, que sou tarado por seios e coxas, mas controlo minha tara mesmo bêbado e que, desta vez, juro por Deus, não sei o que me deu.

A coisa foi de repente, como um avião que desanda céu abaixo. Da zoeira absoluta o som passou para uma música lenta, antiga e romântica como não se faz mais, americana e dos Platers, disso tenho certeza porque a música era Only You e sempre que ouço essa música me dá um acesso, uma coisa de romantismo eterno, sou fissurado em Only You e nem preciso estar bêbado, coisa rara de acontecer em festas, mas até que acontece.

Diante de mim, seios e coxas exuberantes, estava a filha do aniversariante e no ímpeto da coisa enlacei-a pela cintura, como o tio amoroso que sempre fui e sobre quem nenhuma suspeita recairia, nada mais normal do que o amigo do pai que a viu nascer a tirasse para dançar.

Normal.

Seguiu a música e ela, quase minha filha, tocou-me as pernas, senti sua mão em meu pescoço e logo estávamos os dois virilha com virilha, num esfrega-esfrega digno dos mais desavergonhados amassos inadmissíveis entre pessoas de boa formação.

Juro que não pensei e, se me confrontarem direi isto, juro que não pensei, mas fiquei de pau duro e ela não refugou, até mesmo incentivou com um rebolante molejo, enquanto punha a cabeça para trás e fixava seus olhos nos meus, não sei se de tesão não sei de espanto.

Confesso que meu coração disparou e isto será a primeira coisa que direi, se vierem me confrontar, meu coração disparou como o de um rinoceronte enlouquecido e a voz lá no fundo da minha mente que dizia está errado, está errado, foi sufocada por mim no momento em que, sem pensar em mais nada, colei minha boca na dela e tivemos um beijo de alta intensidade e, tenho certeza, quem estivesse olhando teria certeza de que ali tinha coisa, eu praticamente estava comendo a filha do meu amigo no salão e ela parecia que sim, estava gostando e mal senti o tapa na cara e o empurrão enquanto ela se afastava chorando e eu ficava ali, de pau duro no meio do salão, para todos os que sempre conviveram comigo ver.

Olhei ao redor, perplexo, e não deu outra sobre mim pousavam os olhos surpresos e condenatórios de minha filha, amiga de infância da filha do meu amigo e, ao lado dela o olhar furioso do meu amigo e todas as pessoas que estavam na festa mirando em mim, o alvo perfeito para todos os tiros, flechadas e opróbrios.

Não havia o que fazer, não haviam desculpas, a saliência obscena da minha bragueta (que rapidamente murchou) obliteravam qualquer tentativa de explicação e fiz o que me cabia fazer naquele instante, fugi.

Agora, porre curado, não tenho coragem de enfrentar o mundo que construí. Ele, que até então fora um mundo amável, sincero e acolhedor, transformou-se no ministério público da imoralidade, no acusador impiedoso, na morte social iminente.

Por que ela, a filha do meu amigo, fez isso de me provocar, me tocar, me dar a entender que estava afim e depois refugar como uma donzela ofendida? Não sei. Talvez a tesão, talvez ela estivesse também bêbada, talvez ela seja apaixonada por mim e teve vergonha de se revelar. Não sei.

O que sei é que eu sou o vilão dessa história, me sinto o vilão e me comporto como o vilão.

Tudo bem, já passou bastante tempo, isto aconteceu há dois dias, é hora de reaparecer e de encarar o problema. Minha primeira atitude é ligar o celular e assim que faço isto ele toca. Quem é? É ela, a filha do meu amigo. Ela pergunta onde estou. Respondo e ela diz para eu esperar que ela está indo ao meu encontro.

Dou um sorriso, bebo uma dose de uísque e concluo que, afinal de contas, nem tudo está perdido.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: