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27/01/2013 / Paulo Wainberg

Ainda bem que não foi comigo

Rezar pelas famílias das vítimas é  o modo fácil de dizer que ainda bem que a tragédia não foi conosco.

Rezar, mesmo, ninguém reza, salvo os religiosos praticantes, mas estes rezam todos os dias, não lhes custa nada incluir mais alguém nas orações.

A fé é um sentimento pessoal, ainda que inexplicável para mim. Mas respeito os que a sentem, por mais ilógico e sem sentido que possa me parecer.

Faço um esforço e imagino uma cena em que eu, tendo fé, me ponha a rezar pelas vítimas, pelos familiares, pedindo a Deus que receba as almas dos mortos e console os vivos que os perderam.

Em que medida as minhas preces servirão para alguma coisa, no mundo real? Será que as famílias que perderam seus filhos na tragédia serão mesmo confortadas e consoladas, graças à minha prece?

Depois que eu rezar, os pais dos jovens, os filhos dos pais, os amigos dos mortos, ficarão conformados e consolados?

Ficarão mais felizes se eu mandar um e-mail, dizendo que rezei em prol do conforto deles?

Por que razão iria eu tirar o direito deles à tristeza, à inconformidade e ao sofrimento por suas perdas, mediante uma prece?

E se Deus permitiu que a tragédia ocorresse, por que iria desejar orações de consolo? Não seria esse o desígnio divino, que a tragédia ocorresse para que os familiares sofressem?

Semana passada morreram dezenas num acidente de trem, há dois dias milhares morreram num terremoto, amanhã de manhã dezenas de milhares morrerão num tsunami, duzentas e tantas pessoas morrerão num ataque terrorista e milhões morrerão numa guerra qualquer.

Qual será o resultado das minhas orações, se eu pedir a Deus que desastres e tragédias e morticínios não ocorram mais?

Não respondo a nenhuma dessas perguntas, embora eu tenha aqui comigo uma resposta. Não respondo para não ofender a fé alheia, para não ofender o consolo individual de ninguém, para não desfazer sentimentos de outros.

Quem sabe eu tenha razão e rezar pelas vítimas da tragédia e seus familiares seja mesmo a forma mais fácil de dizer que ainda bem que não foi comigo.

2 comentários

Deixe um Comentário
  1. lista de email / Fev 23 2013 8:38
  2. June / Jun 9 2015 16:04

    Orar por alguém, fazer uma prece, seja lá o que for, antes (muuuuito antes) de significar “ainda bem que não foi comigo” é uma forma de deixarmos nosso mundinho cheio de egoísmos e dizer “eu me importo com você”. Para quem tem fé é como se duas pessoas pudessem se abraçar à distância.

    Gostar

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