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22/01/2013 / Paulo Wainberg

Outra carta ao Osmar

Osmar, todos sabem, é meu correspondente que não responde e não corresponde. Depois de abandonar a cerveja que, segundo ele, incha, e passar para o uísque, não se deu bem porque, conforme disse, dava muito sono.

Resolveu voltar à cerveja, pois concluiu que com mais de sessenta, inchado ou não, não fará diferença para ele, um solteirão convicto (não é gay), torcedor do Internacional de Porto Alegre e adorador da polenta frita do Barranco, que come com salada de batata de coração de galinha que lhe aumenta o ácido úrico. Como gosta de dizer, gota é doença de nobre, não vou adoecer de alguma coisa pequeno burguesa ou proletária.

Descobri, recentemente, que Osmar, apesar da aparência, possui lá os seus preconceitos sociais.

E vamos à carta que, como sempre, não será respondida e se for, passarei a acreditar no sobrenatural, pois o Osmar é uma invenção bem definida do meu alter-ego.

Querido Osmar:

Da minha parte tudo bem, quanto a você não sei, pois seu silêncio é cruel embora, com toda a franqueza, eu inveje sua condição de passar os dias tomando cerveja sem nenhum compromisso com a realidade.

O que me faz escrever estas mal traçadas linhas como se dizia no tempo das formalidades, é um assunto que está me afligindo sobremaneira e, mesmo que você não me responda, esta missiva servirá, no mínimo, como uma catarse, palavra horrível que substitui a simplicidade de um simples desabafo, atitude que qualquer um pode ter sozinho, desde que tenha chaveado a porta do banheiro.

Vem aí, como todas as coisas que se repetem ano a ano, mais um Carnaval. O Carnaval, como qualquer leigo sabe, é uma festa pagã em que se comemora o tradicional vale tudo que antecede ao período da Quaresma, aquele espaço de tempo durante o qual, segundo as leis da Igreja Católica, você não pode fazer absolutamente nada até a Páscoa, quando Cristo ressuscita e, depois, libera geral.

Durante o Carnaval você enche a cara, veste uma fantasia e sai para a folia, pegando todas e todos, dançando e pulando, cheirando lança perfume e outros adereços, bebendo até não poder mais.

Não sei você, Osmar, mas eu concordo. Todo o cidadão consciente, cumpridor e responsável, tem direito a quatro dias de liberação e, sabe-se, até mulheres que não gostam do sexo anal, nesse período topam.

Porém eu, que me abstenho, não por razões sociológicas e sim por uma simples questão de gosto, talvez de personalidade, porque gosto de fazer tudo o que se faz no Carnaval ao longo do ano, quando os demais estão trabalhando, preciso muito definir uma questão, um tanto intelectual, confesso, mas não  menos do que uma questão, afinal de contas.

Você acha, Osmar, que o Carnaval é uma expressão cultural?

Calma, calma, não me admoestoe,  eu sei que a turma do vai com tudo não está nem aí para a minha divagação, mas você, Osmar, há de compreender minha insurgência e meus delírios mentais, e  sabendo disto, ouso questionar a coisa.

Tenho, cá comigo, duas respostas para a questão proposta: Sim e não.

a) Sim, enquanto festa popular, blocos coloridos nas ruas, rodas de samba, desorganização completa, famílias fantasiadas andando pelas ruas da cidade, marchinhas alegres cantadas com convicção e inocência, porque nascendo no âmago popular, saem as pessoas numa transgressão alegre e feliz, brincando e se divertindo sem consequencias graves, uma ou outra prisão por excesso de contingente, festejando, rindo, se alegrando e, por que não? realizando fantasias guardadas no âmago e desfolhadas ao léo, sem culpas, sem reprimendas, esse Carnaval que alegra as ruas da cidade, desde o vizinho mais inóspito até à donzela menos ingênua e que há muito perdeu a virgindade, não necessariamente num Carnaval, para saber, afinal de contas, o que é isso de sexo, que todo o mundo fala.

Esse Carnaval, querido Osmar, é uma autêntica manifestação da cultura popular e, não sei se você sabe e se não sabe vai ficar sabendo, mesmo que não concorde, a origem da Cultura é sempre popular, pois a arte, ou melhor, a Arte, nasce e se enriquece, graças ao popular, a grande massa que além de sobreviver, gosta também de se divertir.

b) Não, enquanto indústria cultural que visa ganhar dinheiro através dos mil requisitos indispensáveis a um desfile transmitido para o mundo inteiro pela televisão, com regras implacáveis que valem pontos e meios pontos e décimos de pontos, num local designado, cujo nome inadequado é sambódromo e a música é um samba-enredo que vale milhões e que, durante mais de uma hora é repetido sem cessar, enquanto a bateria evolui e as alas se manifestam, com luxo cores e carros alegóricos destinados à destruição imediata, mal termina o desfile programado.

Este Carnaval programado (não que não seja bonito, é), para mim não é expressão cultural, trata-se apenas de um mega-evento que atrai milhões de telespectadores e rende milhões de dólares às emissoras, aos diretores e presidentes da Escola de Samba que disputam o Carnaval como se fosse um campeonato cujo campeão, muitas vezes é escolhido porque os canutilhos da ala do petróleo estavam mais brilhantes do que os canutilhos das outras escolas.

Para mim, querido Osmar, o Carnaval é muito mais cultural no bar de arrabalde, onde amadores tocam violam, surdo e tamborim e a vizinhança se junta para dançar e cantar as músicas que gostam e não as que lhes impõem as Escolas de Samba oficiais do agrado do dinheiro, da indústria e da exploração financeira da apoteose.

Era isto, querido Osmar. O Carnaval vem aí e, pelo que conheço de você, nada irá tirá-lo do bar, da cerveja e do som de um bandolim dedilhado na madrugada, por um sambista bêbado e feliz.

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