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19/12/2012 / Paulo Wainberg

Kadish

Rasquem as veias, cortem os pulsos, dilacerem as carnes. Ó senhor Deus dos miseráveis, dos tristes e dos famintos, dê-lhes forças para suportar e, a mim, um pouco de menos ódio para respirar.

Sou grato à Vossa Excelência por tudo o que não fez por mim, nem esperava que fizesse, e se todos os meus amores se destinavam a fracasso, por que não me avisou?

Rasguem os pulsos, cortem a carnes, dilacerem as veias para que, num único momento de paz, toda a compreensão se desvaneça no murmúrio solitário de uma criança pobre.

Sou grato à Sua Senhoria por me deixar carente de brinquedos e, se todos os que ganhei estavam destinados a quebrar, por que não me avisou?

Dilacerem os pulsos, rasguem as carnes e cortem as veias para que, sem ter mais ameaças de vida, finalmente a morte tombe sobre mim, como o manto sagrado do teu filho, o filho que quiseste ter e a quem não soubeste cuidar.

Sou grato à Vossa Eminência por me deixar à deriva nos mares, sem caravelas e sem veleiros e se todos em que naveguei estavam destinados a afundar, por que não me avisou?

Dilacerem, rasguem e cortem, que não sobre uma seda intacta, uma linha inteira, um verniz açucarado, para que no instante solene e sublime em que tudo fará sentido, eu já não esteja mais aqui, eu já não esteja mais ali. eu já não esteja mais.

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