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18/12/2012 / Paulo Wainberg

Lula

Lula, ao seu modo, é um gênio político e isto não significa ser bom ou ruim. Na época em que surgiu, como um metalúrgico em defesa de sua classe, no momento mais crítico da ditadura militar, ele foi a voz de milhares que não se submetiam… mas também não se arriscavam.

Lula jamais foi além do que podia ir, isto é um fato. Sob o verniz apurado de luta sindical, ele dizia verdades que a ditadura tolerou enquanto pode e, quando não pode mais, foi branda com ele, que reconheceu a benevolência e, sem perder a ênfase, modificou o discurso.

Fundou um partido político, o PT, que propunha um novo caminho que, como tudo o que é novo, é sedutor, movimenta emoções ideais e agrega idealistas sinceros. Seus teóricos, inclusive os mais lúcidos, enfatizavam a moralidade política, a democracia popular e social, a justiça econômica indispensável ao país, então submetido.

Quando Brizola retornou do exílio, após a anistia, Lula mostrou claramente ao que veio, ao dizer textualmente que ele, Brizola, que não pensasse que iria assumir o papel de comando da redemocratização brasileira porque ele, Lula, tinha idéias bem diferentes sobre o significado de democracia.

Foi aplaudido e endeusado, um metalúrgico que usava um dedo decepado na fábrica como mote essencial da classe operária, sempre oprimida e preterida.

Após a absurda constituição liderada por Ulisses Magalhães, velha raposa da velha política, daqueles emedebistas que mais legitimavam o golpe militar do que o combatiam, Lula aderiu à política formal, tornando-se um pífio deputado federal, como foram todos, sob o governo horripilante do grande arauto da ditadura, o senhor josé sarney.

Tentou, por duas vezes, ser presidente do Brasil, mantendo o discurso e a coerência das regras filosóficas e institucionais do PT que, arrogantemente ganhava força nos Estados e Município e, nas duas vezes, foi derrotado.

Não lhe restou outra alternativa que a de aderir a tudo o que, em seus discursos inflamados, sempre combateu.

Numa espúria aliança com um dos partidos mais conservadores e corruptos da História, conseguiu eleger-se Presidente e, nesta condição, implantou a política tradicional que seu antecessor, o renegado Fernando Henrique Cardoso, adotara para o País.

Pagou o FMI contra quem, durante décadas vociferou, pregando o calote. Aproveitou-se o quanto pode da globalização que tanto combateu e do neo-liberalismo que, nas internas, dizia combater.

Virou cidadão do mundo e protagonista da política internacional, defendendo as teses conservadoras, o livre comércio, a inserção e a privatização.

Passou incólume pelo escândalo do mensalão, sob a tese de que nada sabia, de que fora traído e, nesse episódio, acho que a grande maioria dos brasileiros, eu inclusive, preferia acreditar nele, embora lá no fundo de cada um de nós, residisse a certeza de que era impossível que ele não soubesse.

Num debate sobre o uso de cartões de crédito corporativo, vociferou contra o adversário, em tom de ameaça, como quem diz que, se ele insistisse, tudo viria à tona.

Concedeu a um banco privado, o BMG, a primazia e exclusividade de conceder crédito consignado ao funcionalismo público federal e viu seu filho enriquecer, da noite para o dia, explorando um negócio para o qual não estava minimamente preparado.

Protegeu Sarney e sua indignação, quando a Polícia Federal descobriu um milhão e meio de reais no gabinete de sua filha Roseana. E protegeu Sarney que retirou mais de dois milhões de reais de sua conta, na véspera da quebra do Banco Santos.

Enriqueceu o país à custa das commodities e instituiu as bolsas da miséria, coerente com a sua manifestação inicial de que não descansaria enquanto não houvesse um prato de comida na mesa de cada brasileiro.

Pairou acima do bem e do mal, elegendo Dilma após perder José Dirceu, sabendo que nela podia confiar, pois Dilma, pelo que sei, não convive com a corrupção.

Descoberta sua ligação com Rosemary, a quem Dilma defenestrou ao primeiro indício, fugiu para a Europa, onde pode usufruir das suas vantagens e das homenagens, mesmo que o passaporte diplomático de seu filho tenha sido cassado pela Justiça Federal.

Implorou à Gilmar Mendes, filhote de FHC, que retardasse o julgamento do mensalão e foi dar a mão e abraçar Paulo Maluf, que já frequentou a cadeia e que se sair do país será imediatamente preso.

Este último gesto simbolizou o fim de um mito, embora as urnas tenham lhe agradado. Aceitar o apoio de Maluf e submeter-se à exigência dele, de uma fotografia com o aperto de mão, representa a decadência, a derrocada do derradeiro suporte ético-político que ainda lhe poderia ser atribuído, de ser fiel às próprias ideias, de ser protagonista dos alardeados ideias.

Pior do que Dom Quixote de la Mancha, cujos ideais de nobreza e retidão o reduziram à chacota e à loucura, Lula tornou-se, infelizmente, o Cavaleiro da Triste Figura da podridão.

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