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16/11/2012 / Paulo Wainberg

Memórias do futuro

No ano de 2014, quando se realizou a Copa do Mundo no Brasil, finalmente o crime organizado e as autoridades policiais se entenderam, trazendo a paz definitiva para o território nacional.

Foi assim:

Numa reunião em Brasília, com a participação de todo os Ministros e do Presidente, além dos aliados do Presidente, e os chefões do crime organizado, foi assinado o famoso Tratado de Cooperação Mútua, mediante o qual as polícias civil e militar do País passaram a ser pagas pelo crime organizado, com substancial aumento dos respectivos salários, funções gratificadas, cargos de confiança e em comissão.

Ficou ainda decidido o pagamento do que se denominou Dízimo da Segurança, correspondente a dez por cento do faturamento líquido do Crime Organizado, para o Governo. Tal verba, em teoria destinada a atender despesas com saúde, educação, além de obras e investimentos públicos, entrou no conhecido Caixa Única do Governo que ampliou consideravelmente o número de funcionários das três grandes instituições brasileiras, Executivo, Senado (que foi dividido em câmara alta e câmara baixa, triplicando o número de senadores), Câmara dos Deputados e Poder Judiciário.

Na contra-partida, as autoridades concederam anistia total a todos os criminosos, presos ou soltos, resolvendo de uma única vez o grave problema da lotação das penitenciárias e suas precárias instalações.

Foram abolidos da legislação penal artigos que definiam crimes como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, exploração do meretrício, bingos e jogos em geral, furtos de produtos portáteis como celulares e laptopes, corrupção ativa e passiva.

Os demais crimes, mantidos como tal, passaram a ser da exclusiva competência do Crime Organizado, liberado para julgar e punir, conforme a própria conveniência, os praticantes de tais delitos. As penitenciárias e cadeias ficaram, também, sob a administração do Crime Organizado, bem como as ações policiais, que só se desencadeavam por sua ordem.

O Poder Judiciário ficou restrito ao julgamento de ações cíveis entre pessoas, físicas e jurídicas, numa única instância.

Os tribunais estaduais de justiça, Superior Tribunal Federal, Tribunal Superior de Justiça, Justiça Federal, foram eliminados e seus membros convertidos em juizes singulares, sem redução de salários.

A legislação trabalhista e os tribunais do trabalho permaneceram intocáveis, único ponto em que o Governo permaneceu intransigente, não iria abrir mão de resguardar os direitos dos trabalhadores, assegurados pela legislação fascista da Consolidação das Leis do Trabalho.

A partir de então, o povo brasileiro entrou numa era de tranquilidade jamais vista, sem pontos inseguros nas grandes cidades, os bancos pararam de ser assaltados e os caixas eletrônicos nunca mais foram destruídos. Ataques a ônibus entraram no rol das lendas urbanas. Menores de idade puderam exercer seu sagrado direito ao sexo sem turbulência e a pedofilia foi liberada, desde que com o consentimento da vítima.

A corrupção ativa e passiva passou a ser exercida livremente, sem ninguém se incomodar por causa disto. Dirigir embriagado tornou-se o crime mais grave, com penas que iam dos dez anos à prisão perpétua.

Graças à paz social, as grades e cercas foram, aos poucos, desaparecendo das casas, condomínios, residências e escritórios e voltou-se ao antigo hábito de deixar janelas e portas abertas e o turismo floresceu como nunca.

Não há como deixar de fazer referência ao idealizador do sensacional programa, um senador da primeira linha que se transformou em herói nacional, ao lançar o projeto através da frase reveladora, num discurso em plenário: “Para acaber com o crime, una-se a ele.”

O programa brasileiro está prestes a ser implantado, a partir deste ano de 2032, pela ONU que vê, nele, o caminho mais rápido e eficaz para resolver os conflitos mundiais, especialmente no Oriente Médio.

 

One Comment

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  1. Claudia Pachansky / Nov 16 2012 12:33

    Se me lembro bem, já sei em quem votei em 2014…

    Gostar

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