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14/11/2012 / Paulo Wainberg

O Deus que eu queria ter

Ser ateu não é apenas negar a existência de Deus, é desejar que exista um Deus.

Eu, ateu, agnóstico e iconoclasta, gostaria muito que existisse um Deus. O Deus que me faria acreditar nele não estaria cuidando da minha vida o tempo todo. O Deus em que eu poderia acreditar aceitaria que sou humano, tenho defeitos, pratico más ações e cometo pecados.

O meu Deus não me julgaria por ser o que sou, porque eu não seria à sua imagem e semelhança.

O meu Deus não seria meu criador particular nem estaria preocupado com o meu passado, meu presente e meu futuro. Nem me encheria de culpas, não exigiria meu permanente respeito, fé absoluta, não me cobraria obediência nem me diria o que é certo e o que é errado.

O Deus em que poderia acreditar não seria justo nem injusto, não causaria a dor e a alegria, não me proporcionaria a felicidade nem a tristeza.

Esse Deus em que eu poderia acreditar não abençoaria meus dias, desde a hora de acordar até a hora de dormir. Também não julgaria minha humanidade para me reservar o reino dos céus ou me condenar à penação eterna no inferno.

O Deus possível seria o criador do Universo e nada mais. Um ser com apenas o poder da criação e não um juiz permanente, a exibir comportamentos, impor regras e designar destinos.

O meu Deus não careceria de religiões a louvá-lo, não seria responsável pelas tragédias nem seria operador de milagres. O Deus que imagino não exige fé, não faz promessas nem ameaças.

O Deus que desejo não é a representação de Bem nem o oposto do Mal, não é a representação de nada, sua existência seria apenas um fato da existência com a qual não teria qualquer vínculo.

O Deus em que eu poderia crer, não me prometeria vida eterna, nada me prometeria, seria um Deus em si mesmo, que nada pede e nada espera da sua criação.

O meu Deus não estaria preocupado em impor dez, vinte, trinta ou mil mandamentos e não diria quais as minhas funções vitais são legítimas ou não.

Meu Deus não teria vontades a serem observadas, desígnios a serem cumpridos nem planos misteriosos que, por linhas tortas, escreveria o certo. Meu Deus nem saberia escrever.

O Deus que poderia me seduzir não teria um livro a determinar atitudes, a se manifestar por parábolas e a querer que sua criação seja assim ou assado.

O Deus em quem eu poderia acreditar é, portanto, uma inexistência.

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