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13/11/2012 / Paulo Wainberg

Uma carta recebida

Azar, doa a quem doer, vou falar tudo, sem me esconder e sem ter medo de me expor.  Estou de saco cheio de viver num mundo irreal, sendo o que esperam que eu seja, mantendo imagem e aparência.

Desisti de cultivar uma ilusão criada por mim, em benefício alheio. Confesso, sou um crápula, um falso e um fingido.

Vivo pela vida procurando emoções fortes que me dão medo, desejando transgressões profundas, quero encher a cara de uísque como estou fazendo agora, e declarar publicamente que o meu maior desejo, neste momento, é me arrumar com alguma mulher, fugir do meu estabelecimento e passar uma tarde de putaria intensa, com mulheres que imagino, outras que não conheço e muitas que conheço.

Quero confessar minha tesão por amigas reais e por amigas virtuais. Quero admitir minhas fantasias de experiências homossexuais, com dupla e tripla penetração, sendo eu ativo, passivo, sádico e submisso.

Quero viver experiências que nunca vivi por medo. Quero abdicar de preconceitos e aceitar que o mundo é feito de pessoas e não de adversários e inimigos.

Azar, podem pensar o que quiserem de mim, sou um crápula, um cafajeste, um bom homem e um péssimo indivíduo.

Azar, sou mentiroso, falso e traiçoeiro, mesmo que minhas traições, falsidades e mentiras tenham estejam guardadas num cofre de poletinênio aditivado, invulnerável e sem segredo, para que nem eu mesmo possa abrir.

Azar, mais dois goles de uísque, direto do bico, e pegarei no sono, porque tenho medo de sair e realizar meus desejos íntimos, que incluem fama, reconhecimento, sexo, prazer e transgressão.

Azar, depois de mais três goles de uísque, quero pegar meu carro e ir para um bordel, levando três mulheres e um homem para um quarto e fazer, com todos, tudo o que sonho fazer, se eu tivesse coragem e não tentasse esconder que sou um crápula virulento, que fala por falar, que deseja estar sempre de bem e, quando não consegue, não tem força para assumir.

Azar, quero mandar tudo à puta que pariu e aceitar minha frágil humanidade, minha finitude e meu esforço para acreditar em Deus e, talvez, já que é de graça e não custa nada, acreditar mesmo.

Azar, pode pensar o que quiser de mim, só não pense que sou o que mostro ser, porque o que mostro ser é fingimento em segundo grau, escondido que vivo nas vantagens do correto.

Azar, quero que se fodam os corretos, inclusive eu, quero que me foda eu mesmo, corromper os vínculos, desistir de estar e partir para o ser.

Azar se aqueles que dizem gostar de mim se surpreendam, que aqueles que gostam de mim deixem  de gostar, porque eu não gosto de ninguém e tudo o que eu quero é putaria, arruinar relações, me intrometer em amores descuidados e foder todas.

Azar se um dia me apaixonei e achei que ali estava o sentido da vida e não estava. Azar se todas as mulheres que fodi na vida se foderam com minhas mentiras e a única para quem não mentiu, fodeu com a minha.

Azar se, depois de mais quatro goles de uísque e desistir de parecer, mesmo que depois da ressaca do sono embriagado, eu me arrepender do que disse e fingir que não era eu.

Azar se eu não fizer nada disto e me contentar com mais dois goles de uísque, até que o sono torne inviável meus movimentos, para tristeza de todas as putas que estão me lendo.

Azar se eu disser que acho que todas as mulheres são putas, a começar pela minha mãe a quem não vejo a mil dias, nem quero ver.

Azar se a única mulher a quem amei loucamente me traiu, me largou, me ignorou, porque ela não era digna de mim nem do meu amor.

Azar se não sou capaz de me apaixonar outra vez, se não existe amor em minha vida e que sou uma fraude deliberada, um esquisito, um enrustido e um preconceituoso de primeira linha.

Azar se não acredito que uma mulher estuprada não goze, se sou um chauvinista clássico que odeia as mulheres e quer fazer delas um produto a ser consumido.

Azar se, depois de mais dois goles de uísque eu deplorar Bukovski e Carpinejar, duas fraudes capitalistas a encantar donzelas loucas para foder com o primeiro que surgir na sua frente.

Azar se eu declarar minha tesão carnívora por mulheres mais jovens e que não tenho pruridos para comer filhas de amigos meus.

Azar se elas não querem dar para mim, se elas me seduzem como verdadeiras putas, vagabundas da elite e, na hora agá, fingem que estão brincando.

Azar se, depois de mais três goles de uísque, eu remeta a hipocrisia ao cu da mãe joana e o cinismo para o caralho a quatro, porque tudo o que quero é me refestaler em corpos, duros, macios, ardentes, tudo o que quero é beijar ombros e costas suaves e enfiar meu pau em bocetas molhadas e quentes.

Azar se quero comer o cu de alguém, dar o cu para alguém, tudo junto, num mesmo ato insano de prazer diabólico.

Azar se as pessoas que lerem este texto, acostumados com minha delicadeza, bondade, subserviência, compreensão e condescendência se chocarem, porque desisti, pelos menos até passar o porre.

Azar, azar o meu, querido amigo, por revelar assim o que na verdade sou.

3 comentários

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  1. Susana Freitas / Nov 13 2012 18:19

    Paulo louco maluco! Eu que pensei que já tinha visto (lido) tudo e não morri, To aqui bem pirada com tudo isso! Confesso que diante de tanta “bestialidade” me achei uma freira(carmelita) contudo, a essa hora o porre já deve ter passado,e todas as bestialidades confessadas voltaram sorrateiramente pra dentro do armário. Desculpe mas esto u rindo a bessa! Abraço!

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  2. Elane Lustosa / Mar 28 2014 19:18

    Uaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii homem , se foi recebida ou não , olhe é de dizer que este CABLOCO, foi seu próprio remédio diante de tantas agonias , mazelas, dúvidas e quereres seus e de muitos que não tem metade de sua destreza e sabedoria em tratar aquilo que está matando aos poucos , com este excelente tratamento de choque, rsrs, aliás inovador , colocar em um papel tudo que nos aflige e destilar toda uma vontade insana em fazer o que bem se entende, rsrsrs, pouparia muito dinheiro e acabaria com muitas profissões da área de saúde, mas como o seu amigo disse , o porre passa e tudo isso seria apenas uma vontade de ser quem ele é de verdade, um ser humano com suas próprias vontades , perfeito ou não , talvez no dia que seu lado aflorar , este consiga nos dizer qual fora realmente feliz…….. grande e forte abraço!!

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  3. Luciana Carrero / Nov 9 2015 14:14

    É por essas e outras visões de mundo que desloquei-me para a quinta dimensão ao escrever, onde mora a minha insanidade lítero-poético-cultural; é por isso que escolhi meu mundo de magia. Azar desse aí. Prefiro ser uma mente que capta do que uma mentecapta. Estou fora disso, caro amigo Paulo Wainberg!

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