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08/11/2012 / Paulo Wainberg

Azeite de oliva

Disseram que eu tinha que comprar azeite de oliva no supermercado. Foi assim:

– Haroldo, dá uma passadinha no super e traz uma lata de azeite de oliva.

– Tudo bem – disse eu, ingenuamente.

Clarinha raramente me pede para ir ao super, não me custava nada atender ao pedido dela.

Na volta para casa, fui ao super ali perto e me deparei com o primeiro problema: lugar para estacionar. Não tinha, simplesmente não tinha um único lugar para estacionar. Pior, vários carros na minha frente, em fila dupla, esperando a saída de outros para ocupar a vaga.

Olhei as horas, sete e meia da noite de uma quarta-feira. Haveria alguma coisa especial, uma oferta espetacular naquele super, ou o resto da população da cidade, sabendo que eu ia lá, tinha resolvido ir também?

Sou conhecido no mundo, pela minha paciência, sabendo-se que o mundo é constituído por Clarinha e meus dois filhos.

Liguei o rádio e fiquei escutando o final da Voz do Brasil, um espetáculo de rara imbecilidade. Quando consegui uma vaga para estacionar, aí pelas oito e quinze, adentrei, confiante e altaneiro, o recinto do supermercado e, logo em frente à entrada, um enorme cartaz anunciava: “Promoção Especial, apenas hoje: Azeite de Oliva com cinquenta por cento de desconto, pague um e leve dois”.

Minha confiança e altaneirice começaram a dar de si, é óbvio que aquela multidão estava lá para comprar azeite de oliva na promoção.

Um atendente, quase voando, passou ao meu lado e perguntei onde ficava a sessão de azeite de oliva, acho que oliva ele não escutou e, com um sinal amplo e vago, indicou os meandros do labirinto supermercático que, aos meus olhos e naquela altura dos acontecimentos, me pareceu o Labirinto de Creta e, lá no fundo, entocaiado entre mil latas de todas as coisas, inclusive azeite de oliva, o Minotauro em pessoa esperava por mim, para me devorar.

Finalmente e após esbarrar em mulheres alucinadas e homens ensandecidos, com carrinhos carregados de alto abaixo de latas de azeite, cheguei ao setor próprio, cujas prateleiras estavam completamente vazias.

Um atendente, rapaz jovem, encostado numa das prateleiras, tentava tirar, com os dedos, alguma coisa presa entre os dentes, talvez um caco de bolacha ou bala de goma.

– Onde está o azeite de oliva? – Indaguei, com medo da resposta.

– Acabou o estoque todo, disse ele, esfregando entre o polegar e o indicador um pedacinho do que me pareceu carne, que ele finalmente retirara do entredentes. – Mas temos óleo de soja, fica ali, neste mesmo corredor.

– Qual é a diferença?

– Eu não sei, mas acho que é a mesma coisa.

É óbvio que eu não iria decepcionar Clarinha, chegando em casa de mãos abanando. Peguei uma garrafa de óleo de soja, cuja cor me pareceu muito parecida com azeite de oliva e, feliz da vida, fui pagar, no caixa.

Dez caixas estavam funcionando e, em cada uma delas, mais de vinte carrinhos lotados na minha frente. Quatro ‘caixas-rápidas’, para compradores como eu, com menos de dez volumes, também apresentavam longas filas.

Paciência é o meu nome, já revelei. Pus-me numa fila e fiquei observando as outras que, sem exceção, andavam mais rápidas do que a minha.

Chegou minha vez, paguei, ganhei uma sacolinha para acomodar o óleo de soja, entrei no carro e, sem mais nenhuma dificuldade, cheguei em casa.

Coloquei a sacola sobre o balcão da cozinha e fui tomar banho. Quando voltei, Clarinha olhou para mim e disse:

– Poxa, Haroldo, não dá para pedir nada a você. Você não me ouve, não escuta o que eu digo, é sempre assim, por que você não presta atenção uma vez na vida, no que eu falo? Pedi azeite de oliva e você me traz óleo de soja! Tenho horror de óleo de soja. Eu queria azeite de oliva, a-zei-te de o-li-va, entendeu? Como sempre, tenho que fazer tudo nesta casa, se não fosse eu você não achava sua escova de dentes.

Pensei em me explicar. Juro que pensei. Mas resolvi deixar por isto mesmo. Sentei ao lado dela, passei a mão pelos seus ombros, dei-lhe um beijinho na bochecha e disse:

– Desculpe, meu amor, eu sou mesmo muito distraído.

 

 

One Comment

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  1. sacha / Nov 11 2012 11:58

    Liguei o rádio e fiquei escutando o final da Voz do Brasil, um espetáculo de rara imbecilidade. HAHAHA adorei

    Gostar

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