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26/10/2012 / Paulo Wainberg

Virgindade virginal

A virgindade moderna perdeu seus dotes morais e religiosos e, como qualquer outro bem, tornou-se objeto de comércio oficial.

Vendê-la é perfeitamente plausível, seja a masculina, seja a feminina.

Dá-se um basta à castidade do jovem noivo, ansioso por deflorar a virgem que lhe caiu nas mãos, como o sonho de um homem-bomba.

Afinal, o que está acontecendo? Vou explicar.

A virgindade feminina é mais valorizada no mercado, eis que protegida por vigiada membrana, denominada pelos antigos de hímen. Assim que, cravar o sarrafo no matambre era o modo grosseiro como, na Idade Média, a plebe regozijava um desvirginamento.

Em algumas regiões, até hoje meio medievais, pendura-se o lençol nupcial manchado de sangue, a provar que a noiva era virgem e a honra do mancebo, intacta.

No mesmo período, dava-se ao príncipe o direito de primeiro executar a tarefa, nem sempre fácil, de romper a virginal película, entregando o material pronto para ser usado pelo recém esposo.

Mudam os tempos, mudam os costumes e hoje em dia as virgens leiloam o seu hímen na internet àquele que pagar mais. Muito em breve surgirão os consórcios de virgens, um hímen por sorteio, outro por lance, todos os meses. O valor das prestações varia de acordo com os acessórios, seios, coxas, bunda e calcanhares.

Em pouco tempo o Mercado de Virgens substituirá o mercado de ações, commodities e virtuais, como o principal indicador do desenvolvimento dos países, do crescimento ou estagnação das economias, o aumento do PIB e a diminuição da miséria no mundo.

Especulativo como todo o mercado, a cada nascimento feminino será possível aplicar no mercado futuro, através da compra de hímen a preço pré-fixado, representado por títulos ao portador.

A virgem negociada poderá ou não ser usada pelo principal acionista, tão logo atinja a idade legal para o coito. Basta que ele invista no mercado de opções quando, então, o valor de uma virgem atingirá preços astronômicos, ficando a critério do investidor a duração do tempo da virgindade.

Deixo de lado este pequeno exercício de futurologia para ater-me à realidade contemporânea onde, graças à internet, as virgens podem leiloar seu cobiçado hímen, ganhar um bom dinheiro e, se tiver sorte, uma primeira noite gostosa.

Onde o repolho murcha é: E se o ganhador, o arrematante der de si, não cumprir sua função hidráulica, regurgitar, engasgar, brochar? E aí, como é que fica?

Para a virgem, tudo bem, ela estava lá, pronta para ceder-se, cumpriu as regras e as exigências, tomou banho, perfumou-se e, carinhosa como combinou que seria, atendeu às solicitações do arrematante, oral e manualmente. Porém, o indivíduo, lamentavelmente, como nunca tinha lhe acontecido antes, negou fogo, não deu no couro.

Com o hímen intacto, acredito que a virgem tem direito ao valor do lance e o arrematante que vá discutir o caso no tapetão, caso não tenha vergonha na cara.

Eu, no lugar dele e hipoteticamente falando, ficaria quieto, me vestiria e iria embora para casa para encher a cara e ficar repetindo para mim mesmo: Ó como seu infeliz.

Hipoteticamente porque isto, comigo, nunca aconteceu, quer dizer, derrear na hora agá.

E ela, a virgem ainda com hímen, teria direito a promover novo leilão da sua virgindade?

Claro que sim, é a minha humilde opinião. E com sucesso ainda maior, porque o próximo arrematante, caso vença o obstáculo onde outro falhou, tornar-se-á herói nacional, quiças internacional, com direito a ser recebido pelo presidente e entrar no hall de todas as famas.

Porém para a ex-virgem, acho que o futuro não seria muito compensador, seu preço no mercado iria abaixo e apesar de rica cairia no esquecimento.

Nas famílias da classe média, a educação dos filhos tende a sofrer uma radical mudança, os pais querendo que os filhos sejam jogadores de futebol e que as filhas permaneçam virgem, afinal, nunca se sabe como o mercado vai evoluir.

One Comment

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  1. Susana Freitas / Out 26 2012 16:11

    Querido Paulo me desculpe desta vez. Não tenho menor gosto de opinar.Sei que é ficção, mas dificil para mim olhar naturalmente para o tema abordado: me deprime. Tipo assim morro e não vejo tudo, vejo tudo e não morro…E não é moralismo ou preconceito.É um cansaço, uma sensação de distanciamento deste nosso mundo misturado com nojo e tédio!

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