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25/10/2012 / Paulo Wainberg

Dor, uma poética

Does, ó dor cruel, tão forte que me desafinaste.

A dor é o desabafo do corpo contra a mais terrível das leis, a lei do Movimento, origem do espaço, da gravidade e do grande vilão, o tempo.

Os gregos sabiam , tanto que o aprisionaram, o grande Tempo, o insaciável Chronos, com anéis de poeira tentando diminuir sua fome, aplacar o desejo de devorar seus filhos, imobilizá-lo. Os romanos, com seu Império, não ousaram nele tocar, apenas mudaram-lhe o nome para Saturno.

Saturno, o soturno.

Posto nas profundezas, vã tentativa de retirar-lhe o movimento, sim, se o movimento não existir, o tempo não passará.

A arte e o tempo, o tempo e vento, o tempo a nos devorar um a um, com seu assecla – diurno e noturno – o peso, a atração inefável que nos puxa para baixo, cada vez mais para baixo até que, finalmente, embaixo.

O Movimento, esta única força do Universo, que tudo remete à destruição, à colisão, à catástrofe, à dor.

Esta sim, tão perto, tão próxima, basta um pé descalço e a quina de uma mesa e um dedinho machucado dói, uma pele cortada, uma ou dez hérnias de disco e a tortura soturna de Saturno aprisionado te acomete e te reduz, olhai a ironia, o movimento.

El dolor de mi sufrir é um tango redundante, pois o mais de todos os masoquistas não gosta da dor pela dor, quer sim a dor do prazer, o tapa na cara, o arranhão e a chicotada, antes, durante e, talvez, depois.

Não verás jamais um masoquista feliz com dores na sua coluna, não forem elas causadas pelas pontas finas de saltos altos de um sapato de mulher, caminhando em suas costas.

Does, ó dor, com a insistência de um chato cutucador, um chato citador, um chato inverosímel, daqueles que só acontecem comigo.

Does, dor, com a força de um arraso depressor, do tipo que nem banho te deixa tomar, e fazes das artes psíquicas um reles exercício abdominal, no divino divã de um fisioterapeuta, após contrastes nas veias e tubos tomográficos a acelerar vossa claustrofobia.

Does, mísera dor, como dôo eu quado me movo, e me obrigas a criar conjugações inexistentes para verbos irregulares, como se isto tivesse alguma importância no complexo e no contexto.

A dor que does, maldita dor, torna-me um plagiador de verso alheio, a implorar à Gravidade que abra a porta das suas marés e ao Movimento que retire seu estandarte dos ares e que assim o Tempo não passe e tu, dor, vá doer em outras dimensões.

Vítima da mitologia e das frases de efeito, resigno-me ao repouso, ao abdicar de folias mis ou nem tantas, aos remédios estomagofágicos e às teorias energéticas, talvez sem prescindir de um japonês e suas agulhas, aguentando nos ossos, no peito e na raça as ferroadas mal educadas, o tédio das falsas ilusões televisivas e o fastio de soberbos feijões com arroz.

 

One Comment

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  1. Susana Freitas / Out 25 2012 17:46

    “…o fastio de soberbos feijões com arroz.” Continuas genial apesar da dor.

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