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24/10/2012 / Paulo Wainberg

Ser ou ser

Vivemos, meu verdadeiro eu e meu falso eu, um conflito interminável. Meu verdadeiro eu quer transgredir, jogar tudo para o lado, encher a cara às três da tarde de um dia semana. E logo meu falso eu me sabota, lembrando minhas, obrigações, as regras sociais, as dívidas e o que os outros vão pensar de mim.

Meu verdadeiro eu é um vagabundo adorável, capaz de cativar com um sorriso, mesmo quando não fiz o que meu falso eu disse que eu deveria fazer.

Meu verdadeiro eu só pensa em sombra, drinques, mulheres, água fresca e todos os prazeres do mundo. Meu falso eu, entretanto, me censura, diz que não foi para isso que ele entrou na minha vida, que ele está aqui para me advertir, me repreender e me punir. E que eu devo ser como todo mundo é.

Meu verdadeiro eu acredita, até hoje, nas promessas que fizeram desde o dia em que nasci, que tudo seria fácil, que eu podia ser e fazer o que quisesse e que nada de ruim me aconteceria. De novo, meu falso eu me contraria, diz que não devo acreditar em tudo o que ouço, principalmente quando eu era criança e para pensar bem, muito bem, se essas promessas foram mesmo feitas.

Meu verdadeiro eu com nada se ocupa e meu falso eu me enche de preocupações.

Meu verdadeiro eu só me dá prazer, meu falso eu só me dá trabalho.

Meu verdadeiro eu gosta de tudo e de todos, acha que tudo o que dizem é verdade, inclusive que gostam de mim. Meu falso eu vem logo mostrando que não é bem assim, fulano tem inveja, sicrano tem ciumes, aquele me odeia, um outro não acredita numa palavra do que digo.

Meu verdadeiro eu flutua num divino colchão d’água, em águas tépidas e cristalinas. Meu falso eu me avisa que isto é uma ilusão, um desejo e um engano e que é melhor eu sair dessa e crescer de uma vez por todas.

Meu verdadeiro eu é uma cigarra, feliz e cantadeira. Meu falso eu quer que eu seja uma formiga guerreira, cruel e sanguinária.

Meu verdadeiro eu é bom. Meu falso eu, não deixa.

Meu verdadeiro eu propôs um acordo com meu falso eu: meio a meio. Meu falso eu não aceitou, com ele é tudo ou nada.

Meu verdadeiro eu não está nem aí para a morte. Meu falso eu vive me perguntando o que eu penso dela.

Meu  verdadeiro eu nem queria ter nascido. Meu falso eu dá risada disso.

One Comment

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  1. Susana Freitas / Out 24 2012 15:22

    Amei!

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