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09/10/2012 / Paulo Wainberg

Monólogo

Ai Deus, o que faço com esta ardência que me consome, quando minhas coxas roçam, uma na outra, desejando tuas mãos entre elas?

Minha cidade, que as vezes me estranha, é um poço de saudade, um fervor nas entranhas, carros que se tocam, pessoas que se evitam e ocupam a rua, como se fosse só sua.

Olhar vitrines da tarde, quando já é noite, para apagar o alarde que minha pele faz, sentindo falta da tua.

Sou nova e sou faceira, mulher bonita que ama um amor de poesia, tão animal, carnal, sou uma fogueira que saltita a cada olhar teu, mesmo o mais banal.

Como fui me apaixonar assim, sei muito bem. Foi numa manhã, no jardim da infância, quando buscava as crianças e tu, de abrigo, buscavas teu filho.

Teu olhar perfurou meu umbigo, encabulei e fugi, e foste atrás de mim, teu cabelo despenteado, teu olhar de querubim e tua boca a sorrir.

“Muito prazer”, me disseste, estendendo a mão que toquei e tremi. ‘Igualmente’, respondi, sufocada de emoção.

Na noite, como se houvesse pecado, busquei meu marido e amei com sofreguidão, mas só sentia no corpo o tocar da tua mão.

Noite comprida que escorria como leite condensado, enquanto a manhã não chegava e eu mal respirava, louca para ir à escola, com medo de ir à escola, levar as crianças e a esperança de te encontrar.

A cidade andava na contramão, impedindo minha pressa, as crianças brigando, meu coração galopava, o trânsito, maldito, não andava, o que eu mais temia era perder a hora… de te ver. Com tanta demora, eu tinha certeza, mandando as crianças calar, que já tinhas ido embora.

Quase desmaiei ao te ver na porta, esperando por mim, um sorriso nos lábios que me acostumou a ser feliz.

A minha cidade é estranha, por onde ando alguém me olha e me desvenda. Onde estás? pergunta meu corpo, este corpo de que não mais é meu e com o qual sou obrigada a deitar na cama de casal, ao lado de um homem que gosto, mas que não me faz mulher, este corpo que é teu, mesmo quando estás com a tua mulher.

Vivo nas horas roubadas, escondidas e medrosas, nos teus braços, meu amor, que nunca serão meus porque, ai Deus, virá o dia em que te direi adeus, em nome dos filhos meus.

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