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26/09/2012 / Paulo Wainberg

Os homens da minha vida (7)

Anacronismo é uma palavra interessante e importante. Não é sinônimo de antigo nem de fora de época. Anacrônica é a análise de fatos históricos sem levar em conta o contexto em que se deram, e tirar conclusões como se eles tivessem ocorrido no presente.

A abolição da escravatura, no Brasil, ocorreu em 1888, portanto os brasileiros dos anos trinta do século XX conviviam com negros que tinham sido escravos.

A sociedade brasileira mal se habituava com a população negra livre e tinha lá seus preconceitos – o que nada significa – e suas discriminações, estas sim muito graves e que até hoje se manifestam, veja-se a execrável Lei das Cotas raciais para ingresso de negros nas Universidade.

Não canso de repetir que o preconceito é um sentimento humano, todos somos preconceituosos. O verdadeiro e intolerável crime é a discriminação, isto é, por em ação o preconceito.

A História e o presente são malditamente ricas em exemplos de discriminação e, por mais que se fale, parece não haver um fim humano para isto.

Ano passado participei da Jornada Literária, em São Paulo, onde fiz cinco palestras em cinco cidades, sobre o escritor que mais influenciou minha vida.

Falei sobre Monteiro Lobato, o mais importante homem da minha vida na questão leitura-literatura.

Li, entre onze e treze anos, duas vezes a sua obra infantil completa e, pelo menos umas cinco vezes, Os Doze Trabalhos de Hércules, vindo daí minha paixão pela mitologia grega.

Ler Monteiro Lobato foi, para mim, o despertar da fantasia e da imaginação e seus personagens eram figuras constantes na minha mente. Não era por acaso que a empregada do Sítio do Pica-Pau Amarelo, Tia Nastácia, fosse uma negra, porque nos anos trinta, pouca coisa mais podiam fazer as mulheres negras, além de serem empregadas domésticas.

Monteiro Lobato tratou sua personagem com carinho e deu a ela a dignidade de contadora de histórias, além de seu cafezinho magistral, respeitada como amiga por Dona Benta e adorada por Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa e até mesmo por Emilia, a boneca de pano.

Qual criança do meu tempo, que além do precário rádio, nada mais tinha para se divertir em casa, não adorava Tia Nastácia e os livros de Monteiro Lobato?

Quantas noites de leitura e tardes resfriadas foram passadas com os livros do grande escritor, de quem jamais se ouviu ou se soube que tivesse praticado qualquer ato de discriminação racial.

Agora, em pleno século XXI, devido ao fato de Tia Nastácia, no livro As Caçadas de Pedrinho, apavorada com a iminente invasão dos bichos ao Sítio, tenha ‘subido numa árvore como uma macaca’, com a rapidez e agilidade de quem sempre fez isso na vida, estão dizendo – e processando – que Monteiro Lobato era racista e querem tirar o livro dos currículos escolares.

Concordo que se a frase fosse escrita hoje, sem dúvida seria racista, nada mais odioso do que comparar os negros a macacos, coisa muito comum no futebol e mais do que comum entre os torcedores da Lazio, de Roma, de origem fascista, xenófobos e racistas.

Porém, nem isto Monteiro Lobato fez. Ele ilustrou a forma e a rapidez de Tia Nastácia, mulher de idade e gorda, comparando ISTO com a agilidade dos macacos.

Duvido que alguma criança dos tempos atuais, lendo a frase dentro do contexto do livro, vá encontrar uma conotação racista nela, a não ser que o professor levante a questão e os fundamentalistas do politicamente correto façam o alarde que estão fazendo.

Anacronismo puro que, a prosperar, justificará a queima de livros em praça pública, de tão triste memória na Alemanha Nazista e na Russia stalinista e, atualmente, em alguns países movidos à fanatismo religioso.

Daqui a pouco estarão colocando no index das obras proibidas, O Mulato, de Aloisio de Azevedo, outro homem da minha vida, pois o título da grande livro seria, na visão dos anacrônicos e imbecis censores literários, uma manifestação racista.

Monteiro Lobato foi o escritor mais importante para minha formação pessoal e, principalmente porque começou com ele a minha paixão pela leitura.

Tanto que, para escrever este texto, dei uma relida em alguns trechos de sua obra infantil e, para minha surpresa, ela continua tão encantadora quanto minha lembrança recorda.

 

One Comment

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  1. Susana Freitas / Set 26 2012 17:42

    Te vejo tão lúcido tão terno ao mesmo tempo, tão culto nas questões abordadas, como falamos em nossa velha profissão “pertinente” mesmo.É um privilégio te ler assim com essa facilidade em razão da internet e tb da tua generosidade em me permitir isso. Gracias! Abraço forte Paulo!

    Gostar

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