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15/09/2012 / Paulo Wainberg

Quinta pequena carta literária

Ler um romance e escrever um romance são atos que produzem um mesmo fenômeno psicológico cujos efeitos, no entanto, são diferentes e ambos radicais.

Como pertenço às duas categorias, leitor e escritor, o tema é recorrente para mim e vou tentar, brevemente, classificar e explicar o que acontece comigo, em cada uma das situações.

Antes esclareço que o fenômeno psicológico que ocorre nos dois casos é a abstração quase absoluta.

Ao iniciar a leitura de um romance, logo após os primeiros parágrafos, ingresso no universo interno da imaginação do autor e minha mente sofre os efeitos imediatos desse novo mundo, colocando todas as emoções, expectativas, esperança, medo, paixão, amor à disposição da sequência da história e seus personagens.

Estou à mercê do romance e das propostas que ele oferece, tão verdadeiras e reais quanto à vida real.

Por isto digo que ler é atingir o estágio superior da mente, em que somos capazes de dominar e viajar pelo tempo, porque, por maior que seja a abstração, jamais perco o controle, paro de ler quando quero, releio o que quero e, não é o meu caso, se for muito impaciente, vou ler o final para saber logo o que aconteceu.

Ler um romance é conseguir a abstração ideal, aquela em que você sublima a realidade, mas não se desliga dela.

Quando escrevo um romance, a abstração acontece, porém com muito mais intensidade e falta de controle. Posso afirmar que, enquanto escrevo, me descontrolo absurdamente, num estágio em que, quase o tempo todo em que estou trabalhando, mal distinguo o que se passa na minha imaginação daquilo que acontece no mundo real.

Já me aconteceu, mais de uma vez, de chamar alguém com o nome de um personagem e de confundir uma situação verdadeira com o que se passa em meu livro.

Lendo ou escrevendo, o mun do pode desabar ao meu lado que não perco a concentração. Mas um estouro, um barulho de motor ou uma trovoada podem me afastar do universo da leitura. Jamais me afastam do universo do livro que estou escrevendo.

Vivo em permanente conflito de identidade, como escritor, jamais sabendo com clareza se sou eu, o autor, ou se são meus personagens falando por mim.

Para escapar dessa espécie de prisão esquizofrênicas, criei alguns truques mentais que, numa próxima carta literária, revelarei.

3 comentários

Deixe um Comentário
  1. Susana Freitas / Set 15 2012 15:17

    Gostei como tu consegues definir com tanta clareza o teu processo de criação. Dia desses vou fazer o mesmo no meu processo de criação com a pintura.A obra plástica.´e bem doida viu!
    Beijo querido amigo! Saudades de Voce! Andei fora uns dias.

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  2. lista de email / Set 17 2012 11:15

    you’ve got a great way of communicating with the reader, a great way of making me feel like what you have to say is just as important to me as it is to you. keep it up! lista de email lista de email lista de email lista de email lista de email

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