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29/08/2012 / Paulo Wainberg

Os homens da minha vida (5)

Eu era um razoável praticante de esportes, especialmente futebol que, até quarenta anos joguei regularmente entre amigos, de campo e de salão.

Devido às minhas características aleatórios no campo de jogo, discutiu-se por anos se eu era um meia direita que voltava para buscar o jogo ou um centro-médio que avançava, em busca do jogo.

É que minha posição favorita era estar com a bola no pé e berrar, alucinado, quando não me passavam a bola.

Pratiquei outros esportes, como caçador, vôlei, tênis (se é que tênis é um esporte), natação o suficiente para não afundar.

O basquete, entretanto, foi um problema. Não conseguia entender a lógica da movimentação em quadra o que me deixava sempre, e neste caso é sempre mesmo, na posição onde eu não devia estar. Eu era alto para a época e queriam que eu jogasse dentro do garrafão. Lá ia eu para dentro do garrafão e, não sei se ainda existe a regra, era sempre punido com três segundos.

Não sendo canhoto, minha habilidade manual corresponde a quem possui duas mãos esquerdas, logo meus arremessos à cesta ou eram curtos ou eram longos, quase sempre para fora.

Minha carreira no basquete foi astronômica: encerrou em três jogos.

Contei tudo isto para falar em Máximo Gorki, escritor e dramaturgo russo, um dos homens da minha vida.

Nunca me dei bem com os autores russos, acho que fui vítima de más traduções. Eu os achava enfadonhos, cada personagem tinha um nome e quatro ou cinco apelidos, a quantidade de personagens era impressionante e, lá pelas tantas, eu já não distinguia um ‘ilich’ masculino de uma ‘ilich’ feminina.

Achava os contos de Tchecov sem graça, sem impacto e com finais insossos.

A leitura de obras como Os Irmãos Karamazov, Crime e Castigo, Anna Karenina e outras foram torturantes, mas fui até o fim em todas.

Aliás, estou pensando em reler tudo, com traduções modernas, porque é um absurdo que tais obras, tidas como obras primas, não ative meu mais primitivo sentimento ao ler um livro, o prazer.

Então, graças e sempre à maravilhosa biblioteca do meu pai, li Mãe, de Maximo Gorki.

Eu não sabia, então, mas ele escreveu o romance refugiado nos Estados Unidos, para onde fugira da perseguição tzarista.

O romance é uma alegoria à função da pátria socialista, a figura da Mãe, protetora e provedora, distinguindo a luta operária contra a monarquia e à dominadora burguesia da Rússia Imperial.

Eu me encontrava no ague do fervor idealista de luta contra a injustiça e por um mundo melhor.

“Mãe” foi, durante bom período, meu instrumento de batalha social.

Em 1967 eu já estava noivo quando um grupo do Rio de Janeiro apresentou aqui em Porto Alegre a peça Os Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki.

Fiquei fascinado com uma personagem, a filha deprimida da família, cujo nome era Tatiana. Fascinado pela personagem e, talvez um pouco, pela atriz que já não recordo quem era.

Quando terminou o espetáculo, ainda dentro do teatro, olhei para minha então noiva e declarei:

– Se, algum dia tivermos uma filha, o nome dela será Tatiana.

Era um nome incomum, na época quase não se conheciam Tatianas por aqui. Minha noiva sorriu, condescendente, como quem diz: “Vamos ver”.

Dois anos depois de casados, nasceu Tatiana, nossa filha, mãe da Luiza. Durante os cinco ou seis anos que se passaram, entre Os Pequenos Burgueses e Tatiana, fui implacável, se tivéssemos uma filha mulher, o nome seria Tatiana, se fosse homem, ela podia escolher o nome.

Como, então, não considerar Maximo Gorki um dos homens da minha vida, o homem que deu o nome à minha filha?

Fora isto, ler os autores russos continua, para mim, tão confuso quanto jogar basquete.

6 comentários

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  1. Susana Freitas / Ago 29 2012 18:13

    Gostei!
    Tu já leu as Prosas Bárbaras de Eça de Queiroz?

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