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31/07/2012 / Paulo Wainberg

Epitáfio

Aqui jaz este homem que nunca saiu deste lugar, desta cidade, que nunca teve outro sonho, que nunca teve outra vida.

Aqui jaz este homem que caminhou pela mesma rua, trafegou pelas mesmas avenidas, escutou as mesmas músicas e nunca dançou sob as estrelas.

Aqui jaz este homem que só amou mulheres tristes, só fodeu mulheres fáceis e que nunca foi amado como quis.

Aqui jaz este homem alegre, que só comeu carne de segunda, nunca foi ao teatro, não conheceu o Rio de Janeiro, só viajou para Matagal, aldeia isolada no meio do céu aberto, sob um enxame de abelhas, de onde voltou picado, ardido e suado.

Aqui jaz este homem feliz, pai de família honrado, com três filhos e uma filha que jamais lhe deu um beijo, por causa da barba por fazer.

Aqui jaz este homem espantado que nunca compreendeu o motivo, que sempre viveu isolado dos mundos ao seu redor e que, sem dó nem piedade, ignorou o próximo, vitimado pela enchente.

Aqui jaz este homem rico, que estilhaçou os vidros do seu carro, quilômetro zero.

Aqui jaz este homem supremo, que morreu indigente da ternura amarelada de um ou dez mil girassóis, bebendo cerveja gelada na praia, no campo e no mato.

Aqui jaz este homem, que tanto amou outros homens a quem se deu como menina e que encontrou na poesia uma desculpa redentora.

Aqui jaz este homem solerte, que enganou tanta gente e jamais foi enganado.

Aqui jaz este homem malandro, que perdeu o canivete num jogo de bilhar, mas recuperou a navalha numa rinha de galo.

Aqui jaz este homem que comeu tantas mulheres, que um dia perdeu a conta e depois, orando a todos os santos, recebeu o perdão do santo padre, em pessoa.

Aqui jaz este homem que nunca saiu do lugar, da cidade, da rua, do edifício, mas foi síndico.

Aqui jaz este homem que mereceu as falsas saudades eternas da sua mulher, filhos, tios, irmãos, amigos e parentes e uma única verdadeira, de alguém não identificado.

Aqui jaz este homem e que alguém tenha piedade da sua alma.

2 comentários

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  1. mariza lourenço / Jul 31 2012 18:12

    amém!
    que beleza, Paulo.
    um beijo

    Gostar

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