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18/07/2012 / Paulo Wainberg

Idas e vindas

Certos dias acordo, me olho no espelho e enjoo da minha cara. Não é bem nojo e sim um cansaço de ver sempre o mesmo rosto, expressão, rugas, cabelos, devolvendo meu olhar, dia após dias, desde quando me lembro. Não sei exatamente o que sinto, não consigo me imaginar com outro rosto, não há outro rosto que eu queira ter, simplesmente, às vezes, canso do meu.

Numa das vezes em que isto aconteceu, resolvi olhar antigas fotos, quem sabe me renovava? Pra que! Lá estava o rosto que eu queria ter hoje, aquele rosto jovem e agradável dos meus trinta anos, o olhar desperto, ainda guardando estilhaços juvenis, ar de mocidade, otimismo e alegria.

Nunca mais. Fotos antigas em dias de cansaço do meu rosto só pioram o drama.

Hoje é um desses dias, olhei meu rosto no espelho e o conhecido enjoo apareceu. Tentando me livrar da sensação, pensei em algumas alternativas. Cirurgia plástica foi a primeira, que logo descartei, afinal o rosto seria o me.smo de hoje, um pouco mais alisado. Nada me convence que, depois de uma plástica, eu não seria mais do que um velho querendo parecer moço.

Saí de casa pensando no assunto e me ocorreu pintar meus brancos cabelos de preto. Imaginei a cena, chegar em casa com o cabelo todo preto. Num engarrafamento, liguei para minha mulher e perguntei o que ela achava da ideia e ela me disse que, dentre todas a idéias ridículas que eu já manifestei a ela, aquela superava todas, eu que não me atrevesse a praticar aquela atrocidade.

– Eu pinto só uma vez, para ver como é que fica.

–  E a tinta começa a sair e teu cabelo vai ficar preto e branco, as raízes brancas e o resto preto, ridículo, desiste, nem pensar!

– Mas eu queria mudar um pouco…

– Quem sabe tu cortas o cabelo, que está horrível!

Cortar o cabelo. O que muda, no rosto, cortar o cabelo? Simples, o cabelo fica mais curto, nada mais.

Sem plástica e sem pintar o cabelo de preto, cheguei ao centro, o assunto martelando em minha cabeça. Olho para a frente e, vindo na minha direção, a uns cinquenta metros, uma senhora sorri e abana para mim.

Não reconheci a moça, o que não significa nada, quase nunca reconheço pessoas. Para não passar por mal educado, devolvi o sorriso e o abano.

Fomos nos aproximando, eu preparando o diálogo convencional de quem precisa identificar o interlocutor, e ela passou por mim, sem sequer me olhar.

Olhei para trás e ela beijava outra senhora, a destinatária do sorriso e do abano.

Achei muito indelicado, da parte dela, não me contemplar com um mínimo sorrisinho encabulado de quem percebe que provocou um engano.

É, pensei, mulheres são assim mesmo.

Cheguei ao escritório e fui direto ao banheiro, olhar meu rosto no espelho.

Gostei dele.

 

5 comentários

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