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17/07/2012 / Paulo Wainberg

Os homens da minha vida (4)

Com dezessete anos, estudar para o Vestibular de Direito era a meta. Das matérias que caíam, eu adorava Francês, que eu já dominava graças à Carmen de Bizet e à Aliança Francesa, Filosofia, que eu descobri com meu primeiro e mais importante homem literário, que será o último desta série, Literatura Brasileira e Portuguesa, cuja quase totalidade das obras eu tinha à disposição, graças à biblioteca do meu pai.

José de Alencar tentou, através dos seus romances, dar ao Brasil, no século de sua independência, ares de nação. Entretanto, não escapou ao esvoaçante romantismo francês e descreveu o brasileiro, em suas diferentes regiões, da forma idealizada, sonhadora e irreal, como eram os dogmas do romantismo. Os seus “O gaúcho”, “O Sertanejo” e a totalidade da vasta produção sobre o indígena brasileiro, não passaram de histórias imprecisas e muito distantes das realidades daqueles que tentou retratar.

Foi quando me deparei com O Mulato de Aluisio de Azevedo, escritor maranhense nascido já no final do século XIX, quando o romantismo dava lugar ao naturalismo e, no caso de Aluisio de Azevedo, ao realismo. Lendo este livro, pela primeira vez compreendi o verdadeiro significado da escravidão, e da tragédia que foi a escravidão no Brasil. Sem enfeitar, sem eufemismos, ele revela os preconceitos não escondidos da sociedade maranhense e a cínica hipocrisia do clero, de tal sorte que, sob ameaças e repúdios, viu-se forçado a viajar para o Rio de Janeiro, onde a decadência do Império já se anunciava.

Lá escreveu o que considero o primeiro grande romance brasileiro, O Cortiço, cujos personagens são imigrantes portugueses, negros, mulatos e a pequena classe média formada pela burguesia local, todos ávidos por poder e dinheiro.

Até então eu, que conhecia o Rio de Janeiro durante uma excursão do ginásio, em 1959, mantinha a ideia vendida pela mídia e pelos folhetos de turismo internacional da época, sobre a cidade maravilhosa, suas paisagens, praias e as ‘pitorescas’ favelas, formadas por barracos e malocas penduradas nos morros.

Até então eu acreditava na ‘poesia’ do morro, seus sambistas e poetas a enaltecer as roupas comuns dependuradas, a alegria de estar pertinho do céu e as lindas mulatas do carnaval, lavadeiras, empregadas domésticas e prostitutas, na vida real.

Compreendi então, após a leitura de O Cortiço, que a miséria não é bonita, que o cenário descrito com a ênfase da estética naturalista, por Aluisio de Azevedo, tinha sua origem lá atrás, no século anterior, onde seres de todas as proveniências e raças se misturavam, lutavam e se matavam, enquanto a Corte Imperial sequer passava por perto e, naquele meu presente, as elites cariocas, brasileiras e mundiais que para o Rio iam se divertir, com olhares complacentes à torturante vida dos favelados, cantada em verso, prosa e música, como um símbolo da originalidade, criatividade e esperteza brasileiras.

Lembro bem do momento em que, estarrecido, terminei o livro. Acho que foi meu primeiro grande momento de indignação social e meu primeiro sentimento de culpa com a minha própria condição privilegiada, de não pertencer àquele mundo.

Tive grandes discussões com meus pais sobre isto e, para minha delirante cabeça adolescente, iniciava-se ali o desejo que, por uns longos anos acalentei, de mudar o mundo.

Devo isto a ele, Aluisio de Azevedo, o primeiro grande romancista realmente brasileiro.

5 comentários

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