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11/07/2012 / Paulo Wainberg

Contrapé na contramão

Acordou e, como sempre fazia, sentou na cama, esticando os braços para o alto e baixando a cabeça para traz.

Era o que chamava de alongamento do dia. Baixou os braços esticados para frente, a cabeça acompanhando o movimento, quando viu seus pés e achou que ainda estava dormindo.

Eles estavam trocados. O direito na esquerda e o esquerdo na direita. No lugar dos dedões, os mindinhos e os dedões, bem apontados, do outro lado.

Cruzou a perna direita e, diante de si, estava o dorso do pé esquerdo. Moveu os dedos e os que se mexeram eram os que estavam apoiados no chão.

Orgulhava-se de ser um racionalista, como uma explicação lógica para qualquer coisa, inclusive as inexplicáveis, mas naquele momento sentiu um choque de absoluta irrealidade.

Rápido, botou a cabeça a funcionar, fazendo um exercício de respiração, para controlar a ansiedade.

Outra vez, moveu os dedos do pé direito e os que se mexeram estavam na base da perna esquerda.

Primeira conclusão: os pés se inverteram, mas o sistema nervoso e os reflexos continuavam intactos. Moveu os dedos do pé esquerdo e os que se mexeram estavam na base da perna direita.

Com admirável esforço da razão, olhou para os pés que, agora pareciam terríveis deformidades.

Conclusões seguintes: o fenômeno ocorrera durante o sono e tinha sido indolor, prova de que não fora submetido à cirurgia por algum médico enlouquecido ou, no mínimo, nazista. A não ser que tivesse sido anestesiado.

Ergueu as pernas e examinou-as meticulosamente, em busca de cicatrizes e marcas de cirurgia.

Nada.

Ergueu-se para ir ao banheiro e, no primeiro passo, desabou. No chão, as costas contra a cama, percebeu que seu senso de equilíbrio continuava o mesmo, a perna esquerda fazia seu movimento habitual e o pé direito também, isto é, moviam-se em direção contrária. O mesmo acontecia com a perna direita e o pé esquerdo.

Era imperioso que controlasse seus reflexos, se quisesse andar novamente.

Na segundo tentativa, teve mais sucesso, embora cada passo tivesse de ser antecipadamente planejado.

O ato, tão comum, de caminhar, tornara-se um exercício exaustivo, de organização mental, flexibilidade e coordenação.

Pé ante pé, dirigiu-se ao banheiro, seu cérebro fervendo em busca de uma explicação.

Mais tarde, após vestir-se com dificuldade, esbarrou nos sapatos e teve que calçá-los ao contrário.

Nova conclusão: era impossível esconder a deformidade. Olhou-se no espelho, terno, gravata e sapatos invertidos. Estava ridículo.

Mas era um racional, contra tudo e contra todos saiu à rua e postou-se na parada do ônibus, sem ligar para alguns olhares enviesados de outros passageiros.

Direto ao consultório médico, de lá para um hospital, dezenas de exames e radiografias, nada, absolutamente nada foi constatado.

Sua saúde era perfeita, nem o colesterol estava alterado.

Concordou, após acertar o preço, em internar-se no Instituo de Pesquisas, para ser examinado pelos mais eminentes cientistas. Ele era um caso único, uma raridade, um caso quase sobrenatural de inversão de pés.

Na manhã seguinte, ao acordar, foi coçar os olhos e quase enfiou os dedos num deles.

Espantado, olhou para suas mãos e viu os mindinhos para o lado de dentro e os polegares para o lado de fora.

Cheio de entusiasmo, gritou para a enfermeira que lhe trazia o café da manhã:

– Descobri! Descobri! Estou trocando de corpo com o meu avesso do espelho.

Sim, era um racional.

 

 

One Comment

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  1. Candela / Jul 13 2012 5:34

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