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05/06/2012 / Paulo Wainberg

Luar duvidoso

Ao entardecer de domingo, estava olhando o movimento na rua, da porta da minha casa, quando um clarão me surpreendeu.

Entre o tronco do coqueiro e o telhado da casa em frente, uma lua cheia absurda assumiu.

Fixei os olhos nela e, lentamente,  suas manchas formaram um rosto perfeito, olhos bem abertos, sobrancelhas, nariz e boca.

Surpreendeu-me a expressão da lua, olhando aqui para a Terra. O olhar tinha uma perplexidade entristecida, reforçada por um rictus amargo da boca. A lua nos olhava com definida tristeza, como se estivesse compadecida e surpresa com o que estava vendo.

Ela foi subindo e eu, inclinando a cabeça, acompanhei o movimento, até que ela, já pequena, ocupando seu lugar no espaço, foi interrompida por nuvens esfarrapadas que deformaram seu rosto.

Parei de olhar porque meu pescoço já estava doendo, e acendi outro cigarro, o verdadeiro motivo de minha ida para a rua, porque ambiente com cheiro de cigarro não é saudável para Luiza, minha netinha.

Não foi difícil encontrar razões para tão compungido olhar de tristeza que o rosto da lua expressava, apesar de tanta luminosidade e esforço para embelezar o céu.

Eu mesmo, se fosse a lua, ao olhar para nosso planeta não teria outra expressão, muito menos outro sentimento. Guerras, fome, miséria, desperdícios, corrupções, dor, morte, sofrimento, sobejam entre nós, perpassam nossos engarrafamentos, tsunamizam nossas cidades, terramoteiam nossos edifícios, flagelam nossa humanidade.

Reconheço que o olhar da lua, tratando-se ela de um astro apendicite, sem coração e sem sentimentos, teria mesmo de ignorar nossas felicidades, nossos bem-estares, nossos paraísos tropicais, nossas águas tépidas das piscinas e nossas brincadeiras familiares.

Seria pedir muito à ela, uma mera lua cheia.

Natural que ela se compadeça das tragédias de matérias semelhantes aos dela, terra, metal, solidão sideral e, quem sabe?, um pouco de saudades dos tempos em que ela e a terra formavam um único bólido.

Entretanto, devo dizer, havia um pouco mais do que isto no olhar triste da lua. O quê, não sei dizer, mas é como se ela soubesse de alguma coisa que não sabemos, aquele olhar me lembrou o olhar que damos a um ser querido, cuja morte iminente vai acontecer sem que ele saiba, mesmo que pressinta.

O mesmo olhar piedoso e triste que depositamos no ser querido, doente terminal, nos seus derradeiros instantes.

É curioso. Há anos observo a lua e com ela me encanto quando está plena, minguante ou crescente. Já, com telescópio, percorri sua superfície, distinguindo crateras cujas manchas, afinal, é que formam as faces de seu rosto.

Nunca, antes, percebi tal expressão. O que mais me impressionou foi a boca, curvada nos cantos, levemente e para baixo, imitando a máscara da tragédia simbolizando o teatro.

Decidi, para meu conforto e consolo, que alguma alteração na superfície da lua provocou aquele efeito. Ou então, porque assim somos nós, uns dias mais reflexivos do que em outros, naquele momento eu estava particularmente sensível às coisas, muito mais do que a mim mesmo.

Para tirar as dúvidas sobre minha ilusão, ontem postei-me, na mesma hora e no mesmo lugar, esperando que ela surgisse já diferente, já sem aquele olhar e aquele rictus.

E ela surgiu igual. Sem tirar nem por.

E foi-se, noite a fora, despejando sobre mim, sobre nós, sua perplexa tristeza.

Ou ela foi sempre assim e eu nunca me dei conta, ou a lua sabe de alto sobre nós, que nós ainda não sabemos.

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