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17/04/2012 / Paulo Wainberg

O dia em que posei nu

Hoje posei nu para mim mesmo, na frente do espelho. Espelho comprido que reflete da ponta do pé ao último e rebelde fio de cabelo. Foi um pouco antes de me vestir e logo após o banho matinal, que tanto aprecio.

Fazia algum tempo que não me dedicava às poses, urgido pela pressa, pelas contingências cotidianas e, principalmente, pelo desinteresse.

Houve época em que eu posava nu com mais frequência, admirando aquele corpo jovem, bem feito, adequadamente estruturado com cada coisa no seu lugar e no lugar onde as coisas deviam estar, uma suave harmonia que, para rimar, me satisfazia.

Eu me achava bonito. Os pés bem feitos, as pernas longas, sinuosas e bem diagramadas, os órgãos genitais nada de mais, mas nada de menos, o estômago liso, o peito definido, um pescoço de bom moço e o rosto bonito, olhos verdes, boca carnuda, nariz firme, testa ampla e cabelos lisos com seus viezes grisalhos, sugerindo seriedade, nobreza e bom caráter.

Gostava de um perfil, de outro não. O esquerdo, aos meus olhos, favorecia e o direito não.

Questão de gosto.

Naqueles tempos, diante do esplho, eu cobria meu corpo, peça por peça, até chegar ao final social, um homem sério, bem vestido, com a energia de um rapaz, capaz, pronto para enfrentar o dia, o mundo, a vida.

Quando a visão completa do ser social que eu era adquiriu ares de rotina, parei de me olhar com olhos benevolentes ou não, simplesmente deixei de encarar minha figura, não como quem desiste, mas como que tem certeza.

E assim fui levando a vida e deixando a vida me levar, até o dia de hoje, quando novamente posei nu para mim mesmo.

Cavaleiro da triste figura, sem cavalo e sem Cervantes, vi na minha frente menos do que um Dom Quixote, um Retrato de Dorian Gray, para quem o tempo passou, cruel, revelando o que a mente recusava ver.

Bem ou mal, num esforço de amor próprio e auto-consolo, não me achei totalmente desfeito, considerei as mazelas, os desgostos, as alegrias, os sonhos perdidos, a ilusões desfeitas, os amores longínquos e o futuro restante.

Mas fiz uma promessa que hei de cumprir, de nunca mais posar nu para mim mesmo, até que a morte me separe de mim.

One Comment

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  1. Boca Raton CPA / Jan 25 2013 2:50

    each time i used to read smaller content which also clear their motive, and that is also happening with this piece of writing which I am reading now.|

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