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16/03/2012 / Paulo Wainberg

Adotem uma coluna

Somos eretos, o que é um equívoco da natureza  que contraria a principal força que age sobre nós, a gravidade. Os animais, mais sábios do que nós apoiam-se nos quatro pés e os macacos usam os galhos para manter a suspensão em bom estado.

 Nós resolvemos desafiar o mundo, nos apoiamos na sola dos pés e demos origem ao terrível sofrimento, denominado vulgarmente, de dor nas costas. A coluna cervical trabalha como um demônio acuado por cinco anjos vingadores, sofrendo todo o tipo de pressão, para cima, para baixo, para os lados e, para manter nossas barrigas esticadas, reduzindo relativamente o volume, enfrenta a força de gravidade com denodo e honradez, sabendo que o resultado será, inevitavelmente, dor nas costas.

Para operar com dignidade, a coluna cervical, que não é de ferro, serviu-se de discos, assim denominados porque são cartilagens que parecem discos. Eles têm a função primordial de separar um osso do outro, criando um efeito de suspensação que Ford aproveitou muito bem, quando começou a fabricar automóveis.

O que a coluna cervical não sabia é que esses discos desgastam com o tempo e para se protegerem, criam pequenas protuberâncias, ao contrário dos discos comuns que se salvam graças às ranhuras. Ora, essas protuberâncias denominadas hérnias, ultrapassam os limites do disco propriamente dito e, que todos os deuses me perdôem, comprimem os nervos, principalmente um, o preferido deles, cujo nome dramático é ciático.

Quando isto ocorre, nossa reação psíquica é automática: Urrar!

Concomitantemente com a impossibilidade de fazer qualquer movimento cintural, uma das pernas, ou ambas, transforma-se numa tocha ardente, rasgando com expressivo glamour as entranhas dela mesma, como se você abrisse uma melancia e, com uma colher, fosse arrancando nacos e nacos.

A ilustração supra é só uma tentativa de trazer à prática uma sensação impraticável, de dor à la carte, de não botar defeito em qualquer carnificina oficial.

Agora mesmo, graças ao Voltaren que tomei há uma hora, consigo um paliativo para tudo isso, que me permite escrever, deitado, no notebook, só Antonios Carlos, Joãos, Marias e Alcindas sabem como consigo.

É claro que tenho os habituais conselheiros, que recomendam bolsas de água quente, repouso, fazer pilates, diminuir a barriga, caminhar, correr, voar, só não me falam em cirurgia porque já fiz e, quando fiz, passou, mas anos depois, voltou.

Os médicos já não tem mais o que me dizer, consequentemente me mandam parar de fumar, o que me lembra os psicanalistas que atribuiriam o fenômeno às culpas de carrego desde os dois anos de idade.

Aqui em casa, tudo o que consigo é um sorrisinho irônico, como se eu estivesse inventando pretexto para não ir trabalhar.

Estou pensando, pensando, pensando e acho que vou, finalmente tomar uma atitude definitiva para resolver o problema.

Assim, se virem um sujeito na rua caminhando com as mãos apoiadas no chão, caminhando de quatro, portanto, saibam que sou eu.

 Sim. Pensei em vários animais para me inspirar e optei pelo cachorro. Com as grandes campanhas visando a proteção dos animais, quem sabe alguma alma caridosa me recolha, me leve para casa, me dê banho, água e ração, escove meus cabelos e meus dentes, muito carinho e afeto e, aí sim, mesmo sem dor, não precisarei mais ir trabalhar.

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