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04/01/2012 / Paulo Wainberg

O doutor

Quando transaram pela primeira vez, ainda namorados, Haroldo levou um susto.

Clarinha, bastante excitada, exclamou:

– Agora, doutor Haroldo, agora!

E assim prosseguiu, doutor Haroldo, como está bom, doutor Haroldo, eu te amo e, na hora do orgasmo, um longo doutooooor Haroooooldoooo.

Mais tarde, já recompostos, tomando um café na cozinha do apartamento dele, Haroldo perguntou:

– Por que você me chamou de doutor?

– Eu?

– Você me  chamou de doutor Haroldo durante toda a transa.

– É sério? Juro que não me lembro.

Assim o namoro prosseguiu, mais tarde casaram, tiveram filhos e, na hora do sexo, lá vinha Clarinha com seu doutor Haroldo que, depois esquecia de ter dito.

Para ele foi estimulante, pois não tinha curso universitário e trabalhava numa grande empresa de bebidas, onde era encarregado do controle da distribuição. Pelo menos em alguns momentos da vida, justo nos melhores, era promovido a doutor. 

Conversando com Clarinha sobre o assunto, várias vezes ao longo do casamento, concluiu que ela gostava tanto dele, tinha tanto amor por ele, que o elevava à duvidosa categoria de doutor, como se estivesse fazendo amor com alguém mais importante, na fantasia dela, do que ele realmente era.

Por outro lado, ele sabia que ela não estava a fim quando, após beijos e abraços, ela nada dizia. Nessas ocasiões, respeitava a mulher, limitando-se a dizer palavras amorosas, que ela retribuia com intensidade.

Haroldo era, assim, um homem feliz, um marido com a certeza de ser amado pela esposa, mesmo quando, entre eles e por qualquer razão, o desejo arrefecia.

Em compensação, quando a coisa voltava a ferver, a ênfase dela no doutor Haroldo dava a impressão de que, em segundos ela estaria o chamando de excelência.

Na noite em que sairam para celebrar os quinze anos de casamento, Haroldo, durante o jantar num elegante restaurante, com malícia na voz e no olhar, afirmou:

– Hoje o doutor Haroldo vai arrebentar.

Clarinha, que nunca tinha acreditado naquela história e negava terminantemente que usasse doutor Haroldo, quando transava, respondeu, também com malícia, na voz e no olhar:

– Não sei do que você está falando, Haroldo, mas pode arrebentar.

Assim os dias e os anos passaram, o casal convivendo em harmonia, os filhos crescendo junto com seus problemas, até que, numa fatídica noite, tudo desmoronou.

Deitados, Haroldo colocou a mão no seio de Clarinha, indicação conhecida por ambos, de que ele queria coisa.

Clarinha virou-se para ele e iniciaram suas preliminares e, quando estavam no auge, prontos para o amor, Clarinha exclamou: Haroldo! e, pelo resto do tempo, até o orgasmo, foi: Ai Haroldo, que bom Haroldo, agora de ladinho Haroldo, Haroldo, Haroooooldo!!!

Mais tarde, enquanto ela dormia, ele caminhava pelo quarto, trêmulo e assustado: Clarinha estava tendo um caso, ele estava sendo traido, agora era um corno, mal viu nascer o dia, cada vez mais atormentado com a certeza que desabava sobre sua cabeça.

Durante o café, ela percebeu o estado dele, deplorável:

– O que houve Haroldo. Você está horrível! Foi tão ruim assim, ontem? – ela perguntou com safadeza no olhar.

– Quem é ele, Clarinha?

– Ele quem, meu bem?

– Ele, o homem com quem você está me traindo!

– Hiii, ficou maluco? De onde tirou essa idéia?

– Ontem, Clarinha, ontem a noite você não me chamou uma única vez de doutor Haroldo.

– Aí vem você com essa história de novo! Eu nunca chamei você de doutor Haroldo.

– Chamou, sim, você sabe muito bem que me chamava de doutor Haroldo, quando a gente transava.

– Isso é coisa que você inventou Haroldo, já cansei dessa história, por que motivo eu iria te chamar de doutor?

– Porque você gostava tanto de mim e de transar comigo que tinha que me atribuir um título, uma reverência, sei lá.

– Haroldo, eu amo você, adoro transar com você, não preciso te dar título algum nem preciso mostrar o prazer que sinto. É o meu prazer que fala por mim, rapaz, ainda não entendeu?

– Quem é o teu novo doutor, Clarinha?

E não houve jeito, nada que ela fizesse tirava dele a idéia de estar sendo traindo.

Quando ela o procurava, na cama, lá vinha a resposta:

– Teu doutor falhou, hoje?

Passou a seguí-la. Durante semanas, acompanhou cada passo dela, cada telefonema, cada conversa. Fez isto com a ajuda de um colega de trabalho, que fora realmente traido pela esposa e usara um sistema de escuta perfeito, capaz de captar até os pensamentos dela.

Durante esse período, que durou cerca de três meses, nada descobriu. Clarinha era uma esposa fiel, ele teve que reconhecer. Não havia um único indício, uma palavra sequer, pronunciada por ela ao longo desse tempo, que não fosse absolutamente normal, clara e límpida.

Finalmente convencido da honestidade da mulher, naquela noite procurou por ela. Ela reagiu com agradável energia, atirando-se ao amor como quem está muito apaixonada. E, ao longo da transa, repetia suas frases preferidas, Haroldo, vem por trás, Haroldo eu vou por cima, Haroldo, você me deixa louca, amo você, amo você.

Nenhuma vez ela usou o doutor. Nunca mais usou o doutor.

Casados até hoje, Haroldo já não tem certeza de que ela alguma vez tenha usado doutor. Vai ver era ele quem precisava ser elevado a um doutorado, ele que nem faculdade tinha.

E durante dois anos, Clarinha usufruiu do doutor Armando, pelo menos duas vezes por semana, depois que Haroldo encerrou a perseguição.

Mas nunca deixou de amar Haroldo.

4 comentários

Deixe um Comentário
  1. Graca Craidy / Jan 4 2012 16:21

    ali tinha, entao….;-) Mto bom, Paulo!

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  2. Edson Chein / Jan 5 2012 8:17

    Fantástica história de mulher serpente……rsrsrsrsrs

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  3. Hilton Boklis / Jan 5 2012 9:20

    Ótimo!

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  4. gilbeto / Mar 24 2014 20:53

    Suas cronicas s maravilhosas! Abraco

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