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30/12/2011 / Paulo Wainberg

Ano que vem vai ser diferente?

Não é assim tão fácil, vem o ano novo e você, imbuido dos melhores sentimentos, releva o que foi ruim, admite seus erros e determina-se a, no ano que vem, ser e fazer tudo diferente.

Não é assim tão fácil esquecer as mágoas, perdoar as afrontas e determinar-se a, no ano que vem, refazer as perdidas amizades.

Não é assim tão fácil cair na festa, como se ela não fosse acabar e, no dia seguinte enfrentar a ressaca, a dor de cabeça e as ilusões perdidas.

Não é assim tão fácil prometer que, no ano que vem, irá a tudo o que não foi, neste que acaba, fará tudo o que não fez, neste que terminou, que será melhor pessoa do que foi no ano velho.

Não é assim tão fácil esperar ser amado por quem nunca amou você, desejar amar a quem nunca amou, a gostar do que nunca gostou e fazer o que esperam que você faça e nunca fez.

Não é assim tão fácil jurar não se culpar pelas causas perdidas, pelas causas abandonadas pela festa que não foi, pelo parabéns que não desejou, pela visita que não fez ao hospital, pelo dinheiro que não deu ao garoto de rua, pelos dias em vão que deixar passar, pelos convites que recusou, pela vida que levou, pelo dia em que nasceu e pelos milhares de nãos que disse, querendo dizer sim, pelos milhares de sins que disse, querendo dizer não.

Não é fácil afirmar que vai ser normal, que não vai pensar bobagens, que abandonará o desejo de transgredir, que nunca mais vai chorar sozinho, no banheiro ou na cama e acreditar, piamente, que o que vem de baixo não te atinge.

Não é fácil viver como se o que você não liga não tivesse importância, que você está aqui só de passagem, que o porre homérico humaniza e que, decididamente, vai abandonar de vez os ansiolíticos.

Não é facil declarar que aceita a própria solidão, renova-se com com ela, transformar os descaminhos em energia positiva, deitar-se com quem não deseja, desejar quem não deseja você e abrir mão de masturbar-se em noites desesperadas.

Não é fácil decidir cultivar o espírito, largar os vícios, mudar os hábitos e desistir de ser diferente.

Não é fácil confraternizar com parentes e amigos, sublimandos as fantasias, brincando para ocultar a verdade e nunca pensar que aquele beijo na face pode ser o caminho para um beijo na boca.

Não é fácil encher a cara com champanhe e forçar uma alegria etílica quando, por dentro, você está morrendo um pouco.

Não é fácil afirmar diariamente um amor, apenas para não se incomodar.

Não é fácil acreditar que, a meia noite do dia primeiro, você será outro e, definitivamente, nunca mais vai ler um jornal.

Não é fácil ser bom.

Não.

É.

Fácil.

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