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28/12/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – No supermercado

Gosto de ir ao supermercado. Não muito, mas quando estou lá, gosto.

Sucede que, no último ano, por razões estruturais e conjunturais, coube a mim o exercício da crucial tarefa, embora minha esposa, se perguntada, afirmará que eu nunca vou ao super.

Você, que é casado, me entende.

Bem.

Uma ida por semana para o “grosso”, também conhecido como O Rancho, e várias outras, esporádicas e eventuais, para comprar aquilo que você só sabe que falta quando precisa: frios na hora do café, cotonetes, sabonete e xampu, fósforos e palitos.

Aparentemente, fazer compras em supermercado é uma tarefa fácil, que não exige maior perícia. Afinal tudo o que você precisa é seguir a lista de produtos que a secretária do lar, a trabalhadora doméstica, a empregada, em suma, elabora com sua letra perfeita para quem tem a idade mental de cinco anos.

Você segue aquela ordem e vai ensacando as coisas, coloca dentro do carrinho, paga, bota no carro, vai para casa, descarrega e pronto. Salvo quando, por alguma razão a doméstica não está, sua mulher está indisposta e você tem que guardar as coisas nos seus devidos lugares.

No meu caso o devido lugar é a geladeira para tudo o que veio gelado. O resto fica placidamente depositado sobre o balcão da pia.

Não, não é má vontade, não me entenda mal e não me critique: é que não sei onde é o lugar das coisas.

Isto eu aprendi, à custa de muito sofrimento: a cozinha é um local misterioso, com lógica própria e personalíssima, incomum e muito, mas muito perigosa.

Bem.

Depois da décima ida ao super, me localizei, o que foi muito bom. É muito bom saber o lugar das batatas, das frutas, dos enlatados, das bebidas. É bom, também saber onde fica o açougue, as saídas apropriadas dos labirintos, também chamados corredores e respectivas gôndolas.

É bom adquirir esse conhecimento que lhe evita zanzar como barata num imenso território, atrás dos produtos da lista, indo para lá e para cá e descobrindo, passo a passo, que num mesmo corredor você pode comprar várias coisas.

Para isto é fundamental ir sempre ao mesmo super, método que adotei como um imperativo categórico. Mesmo assim ainda me surpreendem quando reformulam o labirinto, trocando a ordem das coisas.

Comprar no super é fácil, difícil e mortal. Cebolas, frutas, tomates e carnes é a parte fácil. Ceras, detergentes, rações e sacos de lixo é a parte difícil. Mortal é quando você, seguindo fielmente a lista, as cenouras devidamente ensacadas, os refrigerantes enfileirados e as gelatinas aglutinadas, depara-se com o seguinte item: Albion!

Exatamente, meu caro, foi-lhe solicitada a compra de Albion!  É neste momento que você pede para morrer: o que é Albion? Para que serve? É de comer ou de lavar? O que fazem, na sua casa, com um Albion?

Quando isto me aconteceu, estanquei. Literalmente paralisado, olhei para os lados movendo apenas os olhos. Albion, Albion, nenhum Albion nas gôndolas repletas entre as quais em me encontrava. E nenhum atendente ou funcionário do supermercado por perto. Apenas uma senhora, de aparência apressada, jogando uma mangueira de jardim dentro do carrinho.

– Desculpe, minha senhora – falei, com medo que ela me achasse um tarado querendo coisa. – O que é Albion?

A mulher, segurando uma pá de jardineiro como se fosse decepar-me, respondeu:

– Albion?

– Sim, olhe aqui – e mostrei a lista para ela.

Ela olhou atentamente, inclusive botou os óculos, coçou o nariz e, com um sorriso feio (ela era feia, muito feia), disse:

– Honestamente, nunca ouvi falar.

Pronto! Eu estava definitivamente perdido. Se uma mulher, dentro do supermercado, nunca ouvira falar em Albion…

Resolvi dar o assunto por encerrado. Algo assim como: você está sozinho em casa e vai-se encontrar com a família na casa de amigos. São nove da noite e, já na porta, ouve o som de água correndo. Intrigado você vai atrás do som e, ao chegar na cozinha (zona de perigo), vê o chão alagado e percebe a água correndo por baixo da geladeira. Dá uma olhadinha, pelo lado, e percebe que o jorro vem de um cano que deveria estar conectado ao refrigerador, água destinada a produzir gelo, pois o seu aparelho é “ice Magic”, ou “free frost” ou coisa assim, seja isto lá o que for.

Você faz o que? Hein?

Eu fingiria que não vi, iria encontrar minha família e, na volta, minha mulher que visse o estrago e resolvesse o problema. Não sem o meu integral apoio.

Foi o que fiz no supermercado: esqueci o Albion e prossegui na tarefa de colocar no carrinho os itens propostos pela trabalhadora do meu lar. A lista, escrita numa folha de caderno, de cima para baixo, mais ou menos nessa ordem: cebola, tomate, maçã, detergente, desodorante, formol (eu acho que tinha formol), solvente, dissolvente, vassoura, cem sacos de lixo (achei uma loucura, mas obedeci), maionese dietética, requeijão em copo, papapá, pereré e coisa e tal e lá embaixo, espremido entre panos de prato de flanela e o fim da folha: passe bem.

Cá comigo, pensei: “Delicada a empregada, olha só! Coisa rara, hoje em dia”. Por certo ela, sabedora das agruras que me esperavam, tivera uma espécie de epifania, uma revelação da própria cortesia interior, desejando-me, na sua forma singela e rudimentar de se expressar, tudo de bom.

Naquela noite, em casa, conversando com minha esposa, comentei a gentileza da empregada e, para minha surpresa, ela caiu na gargalhada. Gargalhada mesmo! Daquelas que não terminam, de tirar o fôlego e provocar acesso de tosse.

Quando ela ultrapassou a crise, esclareceu-me: Passar Bem é a marca de um produto para passar as roupas, inclusive as minhas camisas que, sempre gosto bem passadas.

Mais um capítulo negativo na minha saga em busca dos bons sentimentos. Não, a empregada não estava me desejando tudo de bom, ela queria que eu comprasse Passar Bem.

Dormi, naquela noite, desiludido e frustrado. Aquela alegria que senti pela aparente demonstração de solidariedade, esfumara-se como a fumaça dos meus cigarros.

E, na manhã seguinte, descobri que Albion é uma marca de papel higiênico.

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