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25/12/2011 / Paulo Wainberg

A Primeira Mentira

Quando eu era pequeno, minha mãe fazia lindas ceias de Natal, com castanhas, avelãs, passas de uva, ameixas secas, peru e, a melhor parte, sorvete. Vinham os meus tios, primos, amigos dos meus pais e, como eram pessoas muito divertidas,  era sempre uma noite alegre. Não podia ter presépio nem árvore de Natal. Meu explicava que nós, judeus, não celebrávamos a festa do nascimento de Jesus, que o Natal eral uma festa da Humanidade e que aquilo que fazíamos lá em casa nada tinha a ver com religião. Que era uma festa para nós, as crianças. Os dias que antecediam o Natal eram delirantes porque, lembro disto muito bem, eu ditava minha carta ao Papai Noel e fazia a lista de presentes  para ele trazer, embora intuisse que minha mãe é quem comprava. Nunca esqueço uma sugestão dela para por na lista uma bola de praia. Eu tinha cinco anos e a idéia foi estranha, o que eu ia fazer com uma bola de praia, se nós nunca íamos à práia? Mal sabia que, naquele verão, eu iria passar quinze dias na casa de um primo, em Capão da Canoa. Nossa casa tinha lareira, mas Papai Noel descia pelas escadas. Vestido com um roupão vermelho da minha mãe, algodão grudado no rosto e uma touca, meu tio Maurício surgia, carregando um saco, na verdade uma fronha, e fazia um discurso sobre o bom comportamento, os estudos, que para ganhar os presentes (todos em frente à lareira, cobertos por um lençol), eu tinha sido um menino muito bem comportado naquele ano. Mas eu que me cuidasse, ano que vem podia não ganhar. O motivo eu não sei, mas já naquela idade eu não acreditava em Papai Noel. Reconheci logo o tio Maurício, mas nada falei para não estragar a alegria dele e de todos, pensando que me enganavam. Aí retiravam o lençol e lá estavam eles, os pacotes de presentes, jogos, carrinhos, brinquedos de todo o tipo e a bola de praia, uma feita de lona, multicolorida cujo destino foi murchar em pouco mais de quinze minutos.

Boas lembranças que tenho de uma infância complicada, com um nível de exigência imenso aportando às minhas costas, eu que era o filho mais velho, o sobrinho e o neto mais velho, o primeiro que nasceu numa família de cinco irmãos maternos e oito irmãos paternos.

Depois daquele, outros houve, mas recordo mais do primeiro, é claro, e do segundo também, porque nele proferi a primeira mentira consciente de minha vida.

Eu tinha pegado no sono, durante o jantar e, à meia-noite me acordaram para abrir os presentes. Corri para a sala de onde o Papai Noel tinha, supostamente, acabado de sair. Uma prima de minha mãe me puxou para janela e, aos gritos, me mostrava o Papai Noel, entrando no seu trenó:

– Olha ele lá! Olha ele lá! – bramia ela, ansiosa, nervosa e repetitiva, apontando para um ponto obscuro na escuridão da rua.

Eu nada via, e ela insistia. Tanto insistiu que eu, não sei se para agradá-la ou para me ver livre do assédio, afirmei que, sim, que estava vendo.

Imediatamente ela me soltou e, virando para o grande público anunciou:

– O Paulinho viu o Papai Noel indo embora.

Alguns riram, outros não se importaram e tudo estaria bem, se não fosse o olhar muito sério de meu pai, posto em mim.

– Tu viste o Papai Noel, Paulo?

Eu, que já tinha medo dele, fiquei aterrorizado com o tom da voz, o olhar e a pergunta dele.

Mal consegui acenar que sim, com a cabeça.

Ele sorriu para mim, passou a mão pelos meus ombros e foi, comigo, abrir os presentes.

Ao longo do ano seguinte fui brindado com inúmeras conferências sobre o significado e os efeitos nocivos da mentira.

Assim era meu pai, brabo e terno.

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