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20/12/2011 / Paulo Wainberg

Espírito Natalino

Por menos que eu deseje e totalmente a contra gosto, sou obrigado a admitir que existe um espírito de natal.

Ele se manifesta em todas as classes sociais, nas grandes metrópoles e nos pequenos vilarejos, basta que haja alguma coisa à venda.

Muito mais do que celebrar uma festa religiosa, o espírito de natal comemora o volume de vendas, a quantidade de empregos temporários, a incidência grandiosa do ICM, para alegria contagiante das associações e federações comerciais, clubes de dirigentes de vendas, balconistas nem tanto, proprietários de lojas muito mais.

O espírito de natal lota supermercados, shoppings, lojas de todo o gênero, inclusive o armazém da esquina lá de casa e o camelódromo

Às dez da noite do dia vinte e quatro, quando, por cortezia dos proprietários, os empregados podem ir para a casa e as lojas fecham, igualmente fecha-se o espírito natalino, restando outra coisa que não seja confraternizar um perú com a família, distribuir presentes inúteis para os adultos e brinquedos úteis para as crianças e, depois, no caso de alguns, assistir a missa do galo celebrada pelo Papa, na televisão, quando ele mais uma vez pedirá paz para o mundo e ninguém dará bola ao pedido.

O espírito de natal, entretanto, promove algumas situações humanas bastante consideráveis como foi o caso de Haroldo e Clarinha.

Eles se conheceram num esbarrão inevitável na loja de R$1,99 onde eles e milhares de pessoas compravam presentes para os respectivos amigos secretos.

Sorrisos, desculpas, ajudas, acabaram saindo juntos e foram tomar um sorvete. Enquanto aguardavam na fila, Clarinha perguntou o que Haroldo fazia.

– Sou Papai Noel – disse Haroldo.

– Como assim?

– Papai Noel, me visto de Papai Noel e sento nas lojas recebendo as crianças.

– Interessante, mas isto é só no Natal, não é?

– Não, não, sou Papai Noel o ano inteiro.

O olhar de Clarinha para ele foi, no mínimo, estranho. Ela rapidamente terminou o sorvete e despediu-se de Haroldo, sem fornecer celular ou endereço.

Haroldo suspirou aliviado:

– Que mulher feia! Ainda bem que escapei dela, com essa história de Papai Noel.

Ainda com gosto do sorvete na boca, voltou à loja de um e noventa e nove e, celebrando o verdadeiro espírito natalino, terminou de fazer as compras para os seus amigos secreto.

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