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30/11/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Não há tempo para perder

Vem aí as férias e com elas a preocupação de nossa educativa coluna com o aprimoramento literário de seus leitores. Não que você precise, é claro, mas vamos que, por essas coisas da vida, você tenha trabalhado tanto que não lhe sobrou tempo para ler suplementos culturais de jornais e revistas especializadas. É para isto que estamos aqui: para atualizar você e sugerir-lhe as melhores leituras porque, mesmo em férias, não se pode perder tempo apenas com bobagens.

As férias são boas para isso: ler um bom livro, como dizem as pessoas quando respondem o que fazem nas horas de lazer ou nos domingos à tarde, depois da caminhada, almoço com a família e séstea: ler um bom livro.

Para que você, prezado leitor, querida leitora, não se estresse muito nesta época tão estressante, nem se irrite com seu cônjuge, namorado, companheiro ou affaire, proponho um roteiro abrangente, começando pelo primeiro passo que constitui em sair de casa e ir a uma livraria.

É fácil, você encontra uma em qualquer shopping ou aeroporto onde, seja qual for a livraria, os mesmos títulos estarão expostos ao seu consumo. Desista da idéia de esperar um telefonema do seu amigo livreiro que recomendava a você um novo livro que ele, antes de ligar, havia lido e achava, conhecendo você, que seria ótimo que você lesse: ele não existe mais. Hoje, quando alguém se arrisca a entrar em livraria, será recebido – se é que alguém, neste moderno mundo do “faça você mesmo”, vier receber você – por um balconista que lhe oferece os livros expostos com a desenvoltura e conhecimento de causa tal qual fosse, o livro, um par de sapatos, um quilo de salsichão bem temperado ou uma nova marca de camisinha de Vênus.

Mas você precisa ler, nestas férias e  contra tudo e contra todos, vai ler. Para evitar que você percorra os tortuosos e torturantes caminhos para encontrar o livro que deseja nas modernas livrarias é que vamos apresentar nossa lista de sugestões. Porque caso você dispense a ajuda do balconista dará de frente com intermináveis estantes com dorsos de livros expostos em ordem alfabética do sobrenome do autor. Não que eu ache ruim ficar de joelhos dentro de uma livraria e torcer o pescoço para achar o autor com sobrenome começando por “S”, “T” “V” ou “Z”, na fileira lá de baixo da estante, mas pode fazer mal à coluna ou ao pescoço. Muitos desavisados já saíram de livrarias com torcicolos muito dolorosos.

Allors… às indicações.

Ulisses, de James Joyce. Leitura leve, ideal para uma beira de praia com uma caipirinha. É um dos livros mais comentados e menos lidos de todos os tempos. Invés de ficar fissurado em bundas e sungas, leia Ulisses, ria e divirta-se com as peripécias do herói dublinense. Recomendo a leitura no original, você pegará o espírito exato do autor, ao contrário das traduções onde você fica a mercê dos complexos literários do tradutor.

Aeroporto de Arthur Halley é um livro indicado para os que preferem tirar férias na serra. Trata-se de um livro mais reflexivo, intimista, que exige do leitor profunda concentração. Você que gosta do silêncio mortal dos ambientes serranos, dos melancólicos finais de tarde recheados de mosquitos, terá a oportunidade de conhecer os dramas coletivos e individuais dos abnegados funcionários, pilotos e donos de restaurante que se dedicam, nos aeroportos, ao nosso bem estar.

O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint Exupéry. Se você ainda não leu, é o ideal para ocupar a totalidade de suas férias, sejam elas na praia, na serra ou simplesmente sem sair de casa. Saboreie cada palavra, cada frase, cada metáfora, leia e releia. No final de suas férias você estará apta, querida leitora, a vencer qualquer concurso de beleza.

A Peste de Albert Camus. Para você que gosta do campo e vai passar suas férias numa fazenda, nada melhor do que ler esta obra magistral. Trata-se de uma quase parábola ao avanço do Nazismo na Europa, narrando os episódios de uma cidade onde uma peste mortal se alastra. Gostoso livro, leve e abrangente, ideal para ler nos finais de tarde da campanha, naquele horário em que as minhocas se enterram, os urubus pousam, as galinhas relaxam, o sol está quase se pondo e você cogita de suicidar-se diante de tanto silêncio e paz.

As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Um ótimo livro para iniciantes, pode ser lido durante a balada ou a bordo de um cruzeiro.

OBRAS COMPLETAS DE OLAVO BILAC, do grande poeta de mesmo nome. Uma compilação excelente de poemas para os momentos de ócio e distração ao fim da qual você vai ver com quantos paus se faz um parnaso.

Os Sertões, de Euclides da Cunha. Recomendado para ler no dia seguinte ao término de Ulisses, na mesma praia com uma nova caipirinha.

Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcellos, excelente! Você pode passar as férias inteiras obrigando sua filha a ler o livro e brigando com ela.

A Metafísica, de Aristóteles para, entre um chope e outro, você tirar as dúvidas que sempre teve e nunca teve coragem de perguntar.

GAMIANI OU DUAS NOITES DE ORGIA, de Alfred de Musset, poeta romântico francês. Nesta pequena obra, o grande autor de Confession d’un Enfant du Siècle em que pela primeira vez foi utilizada a expressão “Mal du Siècle”, supera um desafio proposto a si mesmo: queria provar que era possível escrever um texto erótico-porno-poético. E o então secretário geral da Biblioteca de Paris venceu o desafio. Este é um livro espetacular para adolescentes no banheiro e mal chega às cem páginas. Após cada página o adolescente crava uma.

A Ilha da Tesoura, obra ainda não escrita mas que daria uma excelente paródia à obra de Stevenson que você, com toda a certeza, já leu.

A Bíblia Sagrada, obra universal encontrável em qualquer quarto de hotel. Excelente leitura antes das refeições, depois das refeições, antes de dormir, depois de acordar ou por puro desfastio.

A Comédia Humana, de Honoré de Balzac. Se você tirar trinta dias de férias, aí está a leitura perfeita: lendo um volume por dia, ao final das férias você quase terá terminado a obra.

 

Bem, estas sugestões estão aí, à disposição de todos, sem ironia. Ok, vá lá que seja, com um pouquinho só.

Quanto a mim, o sugeridor, já escolhi minha leitura de férias que não sei ainda se vou tirar e, se tirar, não sei aonde. Pensei no almanaque do Super-Homem, na coleção completa do Brucutu ou em todas as revistas da Mafalda, mas desisti.

Hoje mesmo fui à uma papelaria e comprei trezentas folhas de papel ofício. Depois entrei numa loja onde fazem isso e mandei furar as trezentas folhas e prendê-las com aquelas argolas ou espiral, sei lá, que fazem parecer um caderno. No momento em que entrar em férias sento numa confortável poltrona, numa agradável cadeira de praia, numa cadeira de balanço ou simplesmente deito numa rede, numa esteira e numa cama. Separo as folhas: cento e cinquenta para cada lado. Assim abertas, coloco sobre o meu rosto e só tiro para comer. Para beber vou usar canudinho.

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