Saltar para o conteúdo
23/11/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Não brigue, meu bem

Sou daqueles que dá um boi para não entrar numa briga. Mas dou a boiada, a frota de carneiros, as galinhas e toda a minha plantação de nabos para sair dela.

Não é medo, não senhor. Medo é uma palavra que não existe no meu dicionário, tanto quanto vociferam, em Mi Maior Sétima,  deputados e senadores, diante da palavra “corrupto”.

Muito pelo contrário, adoro uma boa briga. Gosto de uma pancadaria generalizada, cadeiras voando, garrafadas na cabeça, socos demolidores, pontapés ardentes nas regiões tubulares, narizes sangrando, dentes quebrados e sangue saindo das bocas, olhos roxos e mulheres correndo de um lado para o outro aos gritos e gritinhos.

Porém de longe, entende?

No cinema, percebe?

Num livro policial, capice?

Minha galhardia exige que eu seja um mero assistente da peleja. Funciona como uma espécie de imperativo psíquico, refreando  impulsos e ganas de participar.

É uma coisa assim, mais forte do que eu.

É que vi três fotos em seqüência no jornal: 1) Um cara grande fugindo de outro numa rua. 2) O cara grande caindo e o outro acertando-lhe potente cruzado de direita. 3) O cara grande caído no chão, as mãos protegendo o rosto, instantes antes do outro bater o pênalti.

Li a notícia: Discussão de trânsito. O cara grande saiu do carro com cara de mau e, achando que seu tamanho era documento, feriu os sentimentos do outro com palavras mal escolhidas. Quando o outro resolveu encarar, desapareceu-lhe a valentia como xixi na sarjeta e, sem temer a opinião pública, tratou de fugir o que, como as fotos mostraram, não conseguiu. Resultado: apanhou.

Como é que ele se explicou em casa é coisa que não consigo imaginar.

Faltou-lhe aquele imperativo psíquico que, como revelei acima, em mim felizmente sobra.

Por isso eu gosto de assistir lutas de boxe. Existem regras, pode isso, não pode aquilo, há um juiz girando ao redor dos lutadores e  se interpondo entre eles e os respectivos suores e bafos para separá-los quando, com certa lascívia, se abraçam. Além disso interrompe a batalha para proteger a integridade física do lutador massacrado, um pouco antes dele perder a aparência humana.

Sendo o Trânsito a entidade impessoal mais pessoal que jamais se inventou, ligue o pisca-pisca para a esquerda e tente entrar. Entre sem ligar o pisca-pisca. Vá devagar, procurando o número do edifício. Pare o carro para sua avó descer.

São nesses momentos que você insulta de morte o outro motorista. Suas ações destinam-se desconsiderá-lo pessoalmente, você está fazendo aquilo contra a pessoa dele, como ousa?, como se atreve?, quem você pensa que é? Com quem você pensa que está lidando?

E lá vem ele fazendo gestos obscenos, gritando insultos e palavrões, jurando você de morte e amaldiçoando você, sua família e, coitada, a puta da sua mãe. Ou não… depende do imperativo.

Porém se você fizer as mesmas coisas acompanhadas de um gesto amigável, um polegar para cima, um abano de mão, um pedido com o olhar, pelas barbas do Pequeno Polegar, você conquistou um amigo para toda vida, um parceiro, alguém que compreende você e suas agruras, um solidário capaz até de descer do próprio carro e ajudar sua avó a entrar no edifício.

Eu tenho a explicação para esse fenômeno aparentemente contraditório porque, entre outras coisas, eu estudei quando criança. Não é para me exibir mas a explicação é simples: cada um de nós gosta e exige que os outros cumpram as regras. Simples assim, uma em cima da outra, sem tirar, sem por.

Quando eles não cumprem as regras, pode ser no trânsito ou na fila do açougue, cada um de nós é acometido por uma indignação além dos limites da bem-aventurança acompanhada de uma ira avassaladora.

Quando o outro descumpre normas, códigos ou convenções, está nos desconsiderando pessoalmente, como um cunhado falando mal de nós para a sogra comum.

Por outro se nós não cumprimos as regras é porque temos bons motivos, como é que esse imbecil aí atrás não vê que eu preciso comprar pão?, que meu motor está rateando, que eu estou querendo dobrar naquela esquina? Dá vontade de parar, descer e… olha o imperativo psíquico aí, calma rapaz, ontem um na sua frente estava fazendo a mesma coisa e você…

Deu para você entender? Ótimo.

Então faça o seguinte: cumpra as regras e dane-se o outro. Ou não cumpra as regras e dane-se o outro.

O que você não pode é viver assim, nessa indecisão.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: