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16/11/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Na falta de coisa melhor

De uma coisa eu tenho certeza: se eu tiver a capacidade de evoluir com a rapidez de um vírus, ninguém me segura.

Portanto, nesta incansável tarefa de encontrar soluções para os problemas mais graves da Humanidade, que tem ocupado boa parte dos meus trinta e sete minutos de lucidez por dia, venho hoje apresentar um plano diabólico para controlar as manifestações viróticas que tanto tem preocupado e adoecido a Humanidade e ocupado os noticiários e aeroportos.

Imaginei introduzir, no mundo viral, um agente secreto, nada mais nada menos do que um vírus ambientalista, de esquerda de preferência, do PT ou PSOL se possível, com graduação superior em Burocracia, no Senado, com perdão da má palavra.

Já tenho até o nome de meu vírus espião: PW31. PW, é claro, são as minhas iniciais, e 31 é a idade que eu gostaria de ter hoje.

Diante da massa viral evoluindo, naquela agitação natural de quem quer empreender e modificar o mundo, PW31 estabelece as futuras normas de procedimento, democráticas, para que a evolução dos vírus não sirvam aos interesses exclusivos da elite.

A primeira coisa é mapear o corpo humano, habitat natural deles:

– Não podemos permitir que áreas nobres, como pulmões, coração, fígado e rins sejam sonegados ao povo em troca de ganhos absurdos de grupos virais privilegiados. Não! Todos os vírus tem o direito de usufruir dessas regiões. Os projetos empreendedores vão elitizar aquilo que é de todos e isto é inconcebível.

Por instantes os vírus em mutação paralisam, tomados pela surpresa. Como assim? Depois de duras horas de trabalho e incontáveis perdas, na luta para arregimentar defesas contra antibióticos e outras agressões medicinais? Após segundos intermináveis na implementação bioquímica, para a transformação da espécie?

Ao mesmo tempo, milhares de vírus um grau abaixo na evolução, conhecidos na sociedade como os anteriores, vibram. Finalmente alguém se interessa por eles, pelos direitos deles.

– O Povo é do povo! – gritam em coro.

Meu espião, como se fosse um vereador de oposição, sabendo que a lógica dos anteriores obedece ao princípio segundo o qual, se eles não podem usar, ninguém pode e deixa como está, prossegue, mantendo os mutantes imóveis, paralisados e incapazes de cumprir seu destino de disseminar e ocupar mais e mais organismos, através da, por exemplo, gripe suína:

– O estômago, este rico manancial, um paraíso ambiental formado por sucos gástricos onde vermes, muitos em extinção, usufruem dos bolos fecais, não pode parar nas mãos de alguns poucos vírus da elite. São estes que nos arruínam, que impedem que os fluxos naturais, como os intestinos, escoem. Não, meus amigos, agora basta!

Nas arquibancadas, os mutantes vaiam e os anteriores aplaudem. Um início de briga agita o plenário, mas a turma do deixa disto logo entra em ação, aplacando os ânimos.

– A partir de hoje – continua PW31 – fica criada a Secretaria Gerencial da Ocupação dos Espaços, que irá examinar os projetos de evolução e seus impactos, inclusive nas articulações e nos joanetes.

Vaias e aplausos.

– A Comissão Interviral de Proteção à Lombriga será encarregada de analisar e aprovar as ações poluidoras de vírus mutantes na bexiga, acnes e no reto.

Mais aplausos do que vaias.

Ficam criadas duas ONGS e uma OCIPE: Uma ONG terá como lema: “Salvem os Espermatozóides” e atuará no corpo masculino. Outra ONG terá como lema: “Salvem os óvulos e os ovários também” e atuará no corpo feminino. A OCIPE estabelecerá as parecerias público-privadas entre as duas ONGS.

Muitos aplausos e pouquíssimas vaias. Lentamente a ala dos vírus mutantes esvazia, milhões de seus integrantes saindo às veias e artérias, cabisbaixos e com ar de desânimo. A turma dos vírus anteriores aumenta avassaladoramente.

Por fim o meu espião dá o golpe mortal no grupo dos mutantes, acabando definitivamente com suas defesas e resistências, não lhes restando outra alternativa que não a de serem expurgados e banidos, através das veias sudoríferas, lacrimais, no xixi e no cuspe:

– Fica instituído o Plano Diretor que vai regulamentar as construções e outras obras. Qualquer tipo de tumor, benigno ou maligno, cânceres de toda a espécie, quistos sebáceos, aumentos de próstata, fígado e inchaços em geral, formação de calos, cancros moles, cancros duros e alhures, terá que seguir os trâmites e só será aprovado se preencher os requisitos constantes das portarias, instruções normativas, cálculos biliares, padrões neoplásicos que, oportunamente, serão editados e, mais tarde, devidamente regulamentados.

As galerias lotadas pelos vírus anteriores vêm abaixo, meu espião é imediatamente aclamado e eleito Presidente Perpétuo da Comunidade Virótica.

Enquanto isto, o último vírus mutante, derradeiro sobrevivente da espécie, melancolicamente joga-se nas geléias de um glóbulo branco, praticando o suicídio.

Provavelmente a Indústria Farmacêutica vai me processar, trucidar, esquartejar ou, na pior das hipóteses, acabar comigo, mas isto é outra crônica.

Como falei lá em cima, se eu evoluir com a velocidade de um vírus, ninguém me segura.

2 comentários

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  1. Green Swamp Mitigation Bank / Jan 9 2013 20:37

    And i am glad reading your article. But want to remark on some general things, The web site style is great, the articles is really nice : D.

    Gostar

  2. marcia lailinlailin / Jul 27 2013 15:23

    oie

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