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09/11/2011 / Paulo Wainberg

Crônica antiga – Mousse de claras

Clarabela, Clarabóia e Clarimunda.

A primeira eu não conhecia, a segunda se abria no banheiro e a terceira era feia de cara e boa de bunda.

Clarabela, ao que consta, estudou filosofia na PUC, fez mestrado em Cambridge e doutorado em Harward.

Clarabóia tende a enferrujar.

Clarimunda, feia de cara, era mesmo boa de bunda.

Clarabela casou com um príncipe. Das Astúrias, dizem.

Clarabóia tende a se trincar.

Clarimunda, apesar da cara, era excelente de bunda.

Clarabela, depois de princesa, escreveu sua monografia.

Clarabóia, enferrujada e trincada, quando abria não fechava.

Clarimunda, que cara horrorosa e que ótima bunda.

Clarabela demonstrou por a mais b que Pitágoras tinha razão.

Clarabóia, enferrujada e trincada, quando fechava não abria.

Clarimunda maquiava a cara, mas brilhava pela bunda.

Clarabela e Clarimunda encontraram-se por acaso, ao lado de Clarabóia, uma na pia e outra no chuveiro.

Ao tentar abrir Clarabóia para aliviar o vapor, Clarimunda não conseguiu e pediu auxílio à Clarabela que, prontamente atendeu.

As duas juntas empurravam para cima o trinco de Clarabóia que, enferrujado, não se moveu.

– Por causa da ferrugem Clarabóia enguiçou – filosofou Clarabela.

– Fundiram-se os metais? – quis saber Clarimunda, esfregando a toalha na bunda.

– Como se foram idéias – respostou Clarabela, guardando na bolsa a Crítica da Razão Pura.

– Idéias são metais que se fundem? – perguntou Clarimunda, de costas para o espelho e admirando-se a bunda.

– E que se lançam ao éter – culminou Clarabela, pronta para sair.

Clarabóia, impávida, mais ainda enferrujava, graças à umidade e ao vapor. Quase nenhuma luz passava por seu vidro fosco, embaciado e trincado. Soberana, reinava serenamente sobre seu reino privado, justamente a privada pública do prédio municipal.

Clarabela respirou sobre o solitário, um brilhante diamante que ganhou de casamento. Um bafo halitoso para extirpar gotículas de vapor que empanavam o fulgor da jóia, à mão posta sob a luz.

– Nem sabe o que me aconteceu – disse Clarimunda, a boa de bunda.

– Nem quero saber – tornou Clarabela. – O sábio é aquele que nada sabe, ponderou.

– Derramaram sobre mim a panela de sopa de legumes, ali no refeitório. Melecaram-me de alto a baixo. Por isso tomava banho. Para me desmelecar. Melecada daquele jeito eu não ia agüentar.

Enquanto falava, Clarimunda passava batom nos lábios finos, pó-de-arroz nas faces secas, rimel nas diminutas pestanas e um lápis marrom nas sobrancelhas tortas.

A cara de Clarimunda era um conjunto disforme, peças erradas de um quebra-cabeças enfiadas à força umas nas outras. Porém, vou te contar, que bunda!

Clarabela quis mijar e, sem nenhuma cerimônia, levantou a saia, baixou as calcinhas e sentou na taboa suja da privada, com cara de nojo.

Clarabóia deu um estalo, comum nos inanimados: era o metal retraindo a dilatação anterior, causada pelo calor.

– Clarabóia desgraçada – porejou Clarabela esfregando o polegar machucado de tanto empurrar o trinco enferrujado.

– E eu, que quebrei a unha – lamentou Clarimunda, nua e de cara pintada, retirando com o mindinho um excesso de batom.

Nesse momento entrei eu na privada, quase me evacuando. Dei de cara com a cara de Clarimunda que disse “ai”, tapou-se com as mãos e virou de costas, mostrando, na íntegra, sua magnífica bunda.

Clarabela continuou mijando, filosoficamente.

– Que bafo – reclamei do vapor – por que não abrem a Clarabóia?

– Enferrujou – disse Clarimunda e, juro por Deus, ela falava pela bunda.

– Fundiram-se as idéias – disse Clarabela que era boa de cara, mas o corpo era uma laje.

– Bobagem – falei. Com meu grosso polegar e viril indicador tomei a Clarabóia pelo trinco e com másculo movimento deflorei-lhe a ferrugem, subindo-lhe o pino argola adentro. Com o punho fechado desferi-lhe um tranco pelas ancas e – voilà – abriu-se a Clarabóia como a vaca ao touro.

– Oh, festejou-me pela bunda a feia Clarimunda.

– O Übermensch! Assim Falou Zaratustra! Nietzsche tinha razão! Você é o super homem – esbaforiu-se Clarabela, levantando da privada e puxando para cima as calcinhas sobre pernas-palito brancas.

– Ô, Ô, Ô – sorri satisfeito. – As damas me dão licença? Eis que me cago.

– Eu fico!

– E eu também!

Clarabóia, definitivamente aberta, aerava, aliviada. As duas confabulavam de costas para mim, as retas de Clarabela e a bunda de Clarimunda.

Obrei-me a rodo, aliviando vísceras, cloacas e tubulações, coisa que sempre faço após um bom mocotó.

Depois, ali mesmo, aos beijos com Clarabela, esbaldei-me com Clarimunda, não sem antes proibir-lhe de me encarar com a face, só com a bunda.

Clarabóia, aberta e devassa, babava gotas da chuva que caia lá fora.

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